Coerência nas palavras e nos atos

Davos centrou-se nas alteraçõs climáticas mas esteve cheio de carros topo de gama movidos a combustíveis fósseis.

Fez este mês 17 anos e tem o megafone do mundo nas mãos. Nem sempre admiro a forma que Greta Thunberg usa para comunicar, mas, ainda assim, considero-a muito. Tem a energia e a coragem de apontar o dedo e abanar o statu quo. A coragem de dizer que é preciso fazer mais e, quando não fazem, de voltar a pôr o dedo na ferida até que a ouçam.

Nesta semana tive o privilégio de fazer a cobertura editorial do World Economic Forum, em Davos, na Suíça. Uma incrível experiência de reportagem no palco do mundo onde se juntam todos os ‘donos disto tudo’. Políticos, empresários, gestores, investigadores. Davos é ‘o sítio’. É o fórum onde se junta o poder, onde todos estão disponíveis para falar, para ouvir e negociar, e onde se captam as tendências que vão marcar a economia, a política e a ciência nesta nova década. Por isso, o WEF merece elogios pela qualidade, persistência e êxito ao longo destes 50 anos. Mas numa coisa Greta tem razão: Davos esteve cheio de automóveis topo de gama movidos a combustíveis fósseis, de segunda a sexta-feira. E num evento cujo tema central foi o combate às alterações climáticas, e que tinha prometido o uso de transportes sem emissões - comboio e shuttles elétricos -, essa promessa ficou longe de ser cumprida.

É preciso dar o exemplo em todas as frentes. David Cameron fê-lo. Pode ter sido ‘anjinho’ quando decidiu referendar o brexit, acreditando que os britânicos não queriam sair da União Europeia, mas foi coerente com a causa que o levou a Davos e usou o comboio, como tantos outros decisores e investigadores das mais prestigiadas organizações privadas e não governamentais que ali acorreram.

Davos conseguiu colocar em todas as manchetes dos mais importantes jornais - The Wall Street Journal, Financial Times e The New York Times - o tema do clima. Só o World Economic Forum tem esta força, provando que os media independentes podem e conseguem ajudar a mudar mentalidades à escala global, de forma editorialmente intocável mas pedagógica. Verdadeiro serviço público. Davos sem os media seria apenas um evento escondido entre a neve dos Alpes suíços.

Rosália Amorim, em Davos

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