Opinião: João Almeida Moreira

Com o dinheiro na voz

Fotografia: Direitos reservados
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No Brasil, para se criar uma empresa são necessários 120 dias e 2038 reais [cerca de 600 euros]

O vídeo de uma entrevista à Rádio Bandeirantes do ator Pedro Cardoso, que trocou nos últimos anos o Brasil por Portugal, tornou-se viral nas redes sociais, para usar uma expressão tão dos nossos dias. Dizia o intérprete de Agostinho na série local de estrondoso sucesso A Grande Família que, graças à mudança, passou a entender porque no seu país natal se fala tanto em dinheiro. É por causa do “Custo Brasil”.

O “Custo Brasil” consiste no conjunto de fatores que comprometem a eficiência nacional e desanimam o investimento estrangeiro. Traduzindo: de acordo com um estudo da Associação da Indústria de Máquinas e Equipamentos, o “Custo Brasil” encarece em 36,27% os produtos brasileiros em relação aos da Alemanha ou dos EUA.

Um dos fatores para isso é a corrupção da administração pública. Segundo a federação das indústrias do Estado de São Paulo, os prejuízos económicos da corrupção ultrapassavam 2% do PIB brasileiro, o equivalente a mais de 50 mil milhões de reais [quase 15 mil milhões de euros], e os dados são anteriores ao furacão Lava-Jato.

Por outro lado, as relações laborais do país regem-se por uma lei com 70 anos, desfasada da realidade social e que estimula a resolução de pendências só em tribunal com prejuízos para todas as partes.

No Brasil, para se criar uma empresa são necessários 120 dias e 2038 reais [cerca de 600 euros], números que o tornam o mais demorado e dispendioso dos BRICS.

A energia do país é a mais cara do planeta e a rede telefónica a segunda, conforme estudo comparativo de especialistas de universidades de São Paulo.

Na ONU, de entre 30 nações estudadas, o Brasil ficou em último lugar na relação entre a carga tributária e o retorno em serviços públicos. Se nos outros BRICS, os impostos equivalem em média a 22% do PIB, no gigante sul-americano é a 35%.

As rodovias, ferrovias, hidrovias e aeroportos são, tendo em conta a dimensão e a complexidade geográfica do país, precárias. A saturação das estradas ou dos portos faz perder tempo e dinheiro incalculáveis.

Num estudo do Instituto de Pesquisa Económica Aplicada, apenas 18% dos concorrentes a um lugar no mercado de trabalho preenchem os requisitos curriculares necessários – os restantes 82% são, portanto, mão de obra desqualificada.

Mas Cardoso não se referia a uma perspectiva tão macro. Falava da vida do cidadão no dia a dia: em Portugal, ao contrário do Brasil, ele não precisava de matricular as crianças numa escola privada porque as públicas têm nível bastante aceitável.

Optou por usar plano de saúde mas espantou-se com o preço acessível: no Rio de Janeiro, explicou, como a diferença de qualidade e atendimento entre as saúde pública e a não pública é enorme, os operadores privados podem dar-se ao luxo de cobrar fortunas pelos seus serviços.

Não falou, mas podia ter falado, dos gastos com condomínios no Brasil que, por causa da insegurança, são brutais: a maioria dos prédios nas grandes cidades tem porteiro 24 horas, câmaras de vigilância, alarmes sofisticados, grades e arames farpados pagos a peso de ouro.

Esta espécie de capitalismo anárquico, cheio de estado e sem estado nenhum em simultâneo, emana da desigualdade. É por causa dela, como acusa Pedro Cardoso, que os brasileiros, mais do que os europeus, falam tanto em dinheiro.

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