Como as Smart Cities podem ajudar numa situação de pandemia

­­Num cenário de pandemia, agora Covid-19 amanhã outra, é fundamental mantermos o distanciamento social. Até aparecer um medicamento eficaz ou uma vacina, a higiene e o distanciamento social são armas fundamentais.

O distanciamento e o isolamento reduzem o contacto entre pessoas, travando assim a velocidade de propagação da doença. É uma estatística simples, mas muito poderosa. Uns dias mais cedo de isolamento podem resultar em 10 ou 100 vezes menos infeções. É o tão falado achatamento da curva e que Portugal tão bem o executou.

O mundo inteiro parou com o Covid-19, mas é opinião generalizada dos especialistas que outras pandemias poderão surgir no futuro próximo. Aliás, esta foi mais uma nos últimos 20 anos. Houve o H1N1, SARS, etc. Pandemias nas explorações pecuárias, infelizmente, já são relativamente frequentes. Por isso, é uma questão de tempo até voltarmos a ter uma crise semelhante. O nosso modo de vida moderno potencializa isso.

Se, por um lado, a desflorestação e destruição de habitats naturais nos coloca em contacto com mais vírus (é sabido que vários animais selvagens são reservatórios naturais de vírus – gripe, ébola, HIV, coronavírus, etc), por outro a aldeia global, com viagens constantes de país para país, continente para continente, encarrega-se de propagar rapidamente doenças para todo o Mundo. Ou seja, temos cada vez mais contacto com novos agentes patológicos e nunca fomos tão rápidos a distribuí-los por todo o planeta. Uma receita para problemas.

Por isso o assunto não termina no Covid-19. Esta foi apenas a primeira batalha, mas outras virão. Coloca-se assim a questão de saber quais as armas que a humanidade deve desenvolver para prevenir e combater pandemias? A nível da gestão das cidades, que tecnologias podemos implementar para controlar estas situações?

O World Economic Forum publicou recentemente um estudo sobre o tema. Baseado num artigo da Newcastle University, analisou-se como várias tecnologias de IoT (internet das coisas) para cidades inteligentes podem ajudar a controlar as movimentações de pessoas numa cidade. Entre os vários dados analisados, foram monitorizados os passos em circuitos pedonais - quem e para onde se caminha – e analisados os fluxos de utentes em transportes públicos. Do estudo resultou que foi possível verificar o decréscimo significativo de atividade na cidade fruto do isolamento social.

Mas devemos ambicionar ir mais longe. Mais que verificar que o fluxo de pessoas diminui, devemos ser capazes de detetar zonas onde o distanciamento social não está a ser respeitado, com aumento de densidade em certos locais. E, com essa informação poder atuar, dissuadindo esses comportamentos.

Atualmente já existem várias tecnologias disponíveis que podem disponibilizar esses resultados. Desde aplicações instaladas nos smartphones, acesso aos dados das antenas dos operadores móveis, a câmaras de videovigilância, etc. Há, no entanto, alguns aspetos importantes a ter em consideração.

A garantia da privacidade é um deles. Já se ouvem vozes a pedir para relaxar esse direito e a advogarem a monitorização da nossa geolocalização pelos sistemas operativos dos telefones. E, apesar das boas intensões que estão subjacentes a estas medidas, é esse o caminho que queremos percorrer? Podemos confiar que as empresas e os governos anonimizam voluntariamente os dados?

Outro aspeto a levar em consideração é a omnipresença. É importante que uma solução seja barata e facilmente escalável em massa por fora a cobrir toda uma cidade. Não apenas algumas zonas mais turísticas e centrais, mas sim toda cidade incluindo zonas residenciais.

É aí que o IoT pode entrar. Com soluções baratas, anónimas e facilmente escaláveis. A iluminação pública, por exemplo, poderia servir como a plataforma ideal para uma solução destas. Por um lado, está presente em toda a malha urbana, por outro tem acesso a energia e está estrategicamente colocada a uns metros do chão. E, no nosso caso, temos em média uma luminária para cada 3 portugueses.

Assim, cada ponto de iluminação pública pode facilmente medir o número de pessoas que estão ao seu redor. E, com isso, validar aglomerações e violações do distanciamento social de uma forma bastante precisa. Pode ainda avisar de imediato que se está a violar essa restrição, seja por um aviso sonoro seja luminoso e ao mesmo tempo, reportar essa situação para a gestão da cidade que poderá acionar os agentes de segurança.

Haverá seguramente muitas alternativas e outras abordagens ao tema. Mas uma solução baseada na iluminação pública pode ser uma arma muito poderosa para o combate de pandemias de forma anónima e económica.

Miguel Allen Lima, ARQUILED CEO

 

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