Opinião: Manuel Falcão

Como está o papel?

Banca jornais

Claro que boa parte das empresas de comunicação que nasceram com base na imprensa criaram outras áreas.

Durante muitos anos a imprensa – jornais e revistas – captava a segunda maior fatia do investimento publicitário, logo a seguir à televisão, que sensivelmente fica com metade do total do bolo publicitário. Mas desde o princípio desta década a queda do investimento em imprensa foi sempre aumentando e, agora, desceu para a quinta posição, atrás, por esta ordem, da TV, digital, outdoor e rádio.

Ao ritmo a que continua a descer o cenário é terrível. Claro que boa parte das empresas de comunicação que nasceram com base na imprensa criaram outras áreas – em alguns casos a televisão; noutros a rádio e o digital. Mas a realidade é que o crescimento da publicidade digital nos sites de jornais e empresas de comunicação nacionais está longe de acompanhar a perda verificada no papel.

Os gigantes tecnológicos – Google (que inclui o YouTube), Facebook (que inclui o Instagram) e mais recentemente a Amazon – levam a parte de leão do investimento publicitário em digital na Europa e na América. Muita desta situação tem que ver com a efetiva alteração dos hábitos de consumo de media, com a utilização dos dispositivos móveis como o polo agregador de todos os conteúdos. Mas há alguma desta perda que tem que ver com moda, com verdades feitas e com a decadência de qualidade da imprensa.

É curioso notar que, num estudo recente da Marktest, os segmentos com maior afinidade com o meio imprensa, com índices de audiência média superiores à média do mercado, são indivíduos entre 25 e 34 anos, das classes mais elevadas, quadros médios e superiores. Já ninguém lê jornais? Não é bem assim: o mesmo estudo indica que neste ano os jornais registaram 2,7 milhões de leitores enquanto as revistas contaram com 3,2 milhões de leitores, e a a audiência média de imprensa neste período foi de 51,0%.

Há quem se esqueça que a imprensa permite um posicionamento, uma recordação e um ganho de notoriedade que são difíceis de bater por outros meios. Mas infelizmente a imprensa saiu de moda e do radar. Em parte porque os seus conteúdos perderam relevância, em parte porque perdeu qualidade e porque se desinteressou do noticiário local e da reportagem investigativa e, mais frequentemente, porque confunde a urgência existente no digital com o tempo que o papel permite.

Não deixa de ser curioso que neste panorama – que não é exclusivo de Portugal, haja publicações como The Economist que comemoram 175 saudáveis anos de edição procurando sempre uma posição alternativa, ou que o Guardian tenha decidido há dias retomar a sua edição semanal, desta vez sob a forma de revista, precisamente para tentar entrar de forma regular entre os leitores mais diferenciados, ao lado de publicações como The Economist ou New Yorker.

É certo que o papel não voltará a ser a fonte das notícias, mas está longe de estar provado que não seja a fonte da opinião, da investigação, do pensamento e da reflexão. A questão é conseguir fazer conteúdos que diferenciem verdadeiramente o que se vê no digital e no papel. O maior desafio é encontrar um modelo de negócio rentável para os sites noticiosos dos jornais e, em simultâneo, conseguir fazer produtos de imprensa com conteúdos relevantes e exclusivos.

Diretor-geral da Nova Expressão, Agência de Planeamento de Media e Publicidade

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