Como reagir à crise global das cadeias de abastecimento?

Fala-se hoje muito da crise nas cadeias globais de abastecimento. Trata-se de um fenómeno que não é matéria exclusiva de economistas pois todos já a sentimos no nosso dia-a-dia. É o telemóvel que pretendemos comprar e que vai demorar muito mais a chegar do que o expectável; é a fábrica de automóveis que teve de suspender a produção por falta de componentes; ou é aquele eletrodoméstico que nos dizem estar mais caro pelo facto de o preço dos transportes internacionais ter aumentado drasticamente.

As causas desta crise prendem-se, por um lado, com os sucessivos confinamentos que desregularam as cadeias de valor globais, e, por outro, com as múltiplas tensões geopolíticas, a começar pelo conflito comercial (e não só) entre os EUA e a China e a acabar nas disrupções causadas pelo Brexit. As consequências de tudo isto são essencialmente duas: falta de produtos e aumento de preços - embora se deva assinalar que a atual pressão inflacionista não se fica a dever exclusivamente a esta situação.

Neste contexto, o propósito do artigo não é "deitar mais achas para a fogueira" de uma visão pessimista do mundo em que vivemos. O objetivo é tão-somente ajudar os nossos gestores a lidarem com este desafio, minimizando os riscos enfrentados pelas respetivas empresas através de um reforço da sua resiliência.

Tudo começa por se reconhecer que lidar com o problema dos abastecimentos exige medidas que transcendem o âmbito estrito das compras, envolvendo também estratégias a nível produtivo e tecnológico bem como opções de marketing e comerciais.

Política de aprovisionamentos. Mais do que nunca, é necessário que as empresas adotem uma verdadeira gestão relacional quando interagem com fornecedores, estreitando os laços, aumentando a cooperação e reforçando a cocriação de valor. Isto a par da adoção de medidas de gestão do risco através de uma sofisticação da logística in no âmbito do processo de planeamento, execução e controlo das encomendas.

Política tecnológica. Há que reorganizar os processos produtivos de modo a conferir-lhes um maior grau de flexibilidade, sem que isso origine perdas significativas em termos de eficiência. A digitalização de toda a cadeia produtiva no sentido de uma indústria 4.0 é um fator crítico de sucesso num contexto de incerteza. Um maior recurso à inteligência artificial, à internet das coisas e a cloud computing é um requisito para que a nossa indústria seja competitiva no pós-pandemia.

Política de marketing. O portfólio de produtos deverá ajustar-se de modo a reduzir os requisitos em termos diversidade de matérias-primas e componentes. Por outro lado, há que aumentar a agilidade go-to-market ao longo dos canais distribuição, o que exige uma maior proximidade em relação aos clientes, antecipando alterações de comportamentos e expectativas.

Como já tenho sobejas vezes salientado neste espaço, o mundo em que vivemos é bem mais volátil, incerto, complexo e ambíguo do que aquele a que estávamos habituados. A crise nas cadeias globais de abastecimento é apenas uma faceta deste mundo VUCA. Saber lidar como ela, antecipando - ou, pelo menos, não atrasando - medidas corretivas vai determinar o nível de competitividade da indústria portuguesa. Há que encarar tudo isto, não como um problema, mas como um desafio. Só temos é de mostrar que estamos à altura de o enfrentar.

Carlos Brito, professor da Universidade do Porto - Faculdade de Economia e Porto Business School

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