Opinião: Vital Moreira

Como se sai daqui?

Fotografia: Kai Pfaffenbach/Reuters
Fotografia: Kai Pfaffenbach/Reuters

"Corremos o risco de o ciclo se inverter e o BCE estar privado de instrumentos para travar a queda numa estagnação económica"

1. Há dias, a presidente do Conselho das Finanças Públicas interrogava-se sobre o facto de o desemprego estar a diminuir consistentemente e o emprego a aumentar, sem que, porém, os salários subam, como seria de esperar. O mesmo se diga, aliás, da inflação, que tarda em aproximar-se do nível de referência do BCE, próximo dos 2%, apesar do aumento do rendimento disponível e do consumo, mercê da robusta retoma económica, a nível nacional, europeu e mundial.

Com a economia europeia a crescer no seu pleno potencial e o desemprego em mínimos de antes da crise de 2008, os salários deviam estar a subir significativamente, a inflação devia estar a caminho dos 2% e o BCE já devia estar a subir os juros para conter a inflação. Mas nem os salários nem a inflação estão a crescer ao ritmo esperado, obrigando o BCE a manter uma política monetária expansionista, como se ainda estivéssemos em depressão económica. Um contrassenso!
No passado houve situações de estagnação com inflação (stagflation). Agora parece chegada a vez de crescimento sem inflação.

2. Parece que os ciclos económicos já não são como soíam. Corremos o risco de o ciclo se inverter e o BCE estar privado de instrumentos para travar a queda numa estagnação económica.
Ora, uma das razões apontadas para o défice de inflação está indubitavelmente ligado ao próprio crescimento débil dos salários, apesar da redução substancial do desemprego. Manifestamente, como se verifica entre nós, a criação de emprego está a ocorrer sobretudo nas atividades de menor qualificação e de menor remuneração, como a construção civil e o turismo.
Outra das razões para a insuficiente inflação estará ligada à crescente liberalização do comércio internacional e à entrada maciça da China nos mercados internacionais, inundando os mercados dos países desenvolvidos de mercadorias mais baratas, oriundas de países com baixos salários.

3. Na teoria clássica do comércio internacional, a redução geral das barreiras à circulação de produtos e serviços e à deslocalização de empresas e o consequente aumento da concorrência transnacional tenderão para uma aproximação progressiva dos salários e dos preços, por efeito da sua elevação nos países onde são mais baixos, mercê da maior procura externa (como está a ocorrer na China), e pelo menor crescimento nos países onde são mais elevados, ou seja, os países desenvolvidos (como está a ocorrer na Europa e nos Estados Unidos), justamente por efeito da estabilidade do custo de vida provocada pelas importações mais baratas.
Pode ser que a subida dos preços do petróleo em curso concorra para mudar a situação, afetando, porém, o crescimento económico.

Professor da Universidade de Coimbra e da Universidade Lusíada Norte

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