Como será o trabalho quando a tempestade passar?

A Organização Internacional do Trabalho revelou há dias que a massa salarial em Portugal conheceu uma quebra de 13,5% entre o segundo e o terceiro trimestres deste ano, o que coloca o nosso país na cauda deste ranking que agrega 28 economias europeias, incluindo a Noruega, Reino Unido e Suíça.

Desemprego e redução de salários, em larga escala decorrente dos processos de lay-off, explicam esta queda. Trata-se de uma diminuição muito significativa a que se deve somar a perda de rendimento de uma parte cada vez mais representativa da população ativa composta por todos os que não recebem um salário propriamente dito.

Para além destes choques, a crise sanitária está associada a uma forte compressão do tempo, fazendo com que no espaço de meses se estejam a registar mudanças que, doutra forma, demorariam anos a ocorrer.

A este respeito vale a pena ler The Future of Jobs Report recentemente publicado pelo World Economic Forum. Realço três aspetos deste relatório que, na minha opinião, são cruciais tanto para empregados como para empregadores, não esquecendo também esse grupo cada vez mais vasto de trabalhadores independentes e de empresários em nome individual.

Em primeiro lugar, a pandemia e a crescente digitalização dos negócios (que já vinha detrás) estão a criar um cenário duplamente disruptivo pois a destruição de postos trabalho está a conhecer uma aceleração enquanto a criação de novos tem vindo a abrandar - o que leva a um crescente desemprego estrutural.

Em segundo lugar, está-se a assistir a um crescimento das desigualdades sociais, sendo os trabalhadores menos qualificados e com salários mais baixos os mais afetados. Mas não só, uma vez que também as mulheres e os jovens estão a ser especialmente penalizados. Um desafio para os ministros da Economia e do Trabalho, bem como para as empresas e suas associações setoriais que devem, nesta altura, demonstrar resiliência e responsabilidade social.

Finalmente, a gig economy está a ganhar terreno no mundo dos negócios. Estamos a falar de todas as formas de trabalho que não têm por base um emprego no sentido tradicional do termo, incluindo as ocupações temporárias e o freelancing - normalmente mais flexíveis, mas também com maior grau de incerteza e insegurança. Um desafio com impacto significativo na economia e na sociedade, em geral, e no meio sindical, em particular.

Depois da tempestade passar, e independentemente de o PIB voltar ou não ao nível pré-pandémico, a verdade é que o mundo do trabalho será muito diferente daquele que existia antes da crise sanitária. Não sei se será melhor ou pior, mas sei duas coisas. Desde logo que o incremento do teletrabalho será apenas uma - e não a única - das facetas dessas alterações. E sei também que aqueles que melhor se adaptarem ao novo contexto serão os que terão maior probabilidade de sucesso. Tudo o resto será saudosismo.

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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