Como sobreviver à castração química da economia

É fácil esquecermos o que estas eleições destruíram. Com o calor dos debates e a animação dos comentários televisivos, já ninguém se lembra que estamos prestes a viver um dos momentos mais importantes da História contemporânea. O momento em que os motores das grandes economias voltarem a funcionar, depois da covid, vai ser uma espécie de corrida pela sobrevivência. Um Grande Prémio das Nações, no qual todos os países vão querer sair à frente, atirar-se ao dinheiro do vizinho e todos, se necessário for, vão fechar o caminho aos concorrentes. E nós? Nós, com sorte, ainda estaremos a debater coligações de governo e performances televisivas.

Para agravar a situação, nas últimas semanas ouvi empresários do turismo e da restauração queixarem-se da falta de acesso a crédito para abrir novos projetos ou até relançar negócios. Aparentemente, algumas das entidades bancárias mais conhecidas, com o arrojo que lhes é conhecido, continuam a achar perigoso investir nestas áreas. "Não vá aparecer outra variante", dizem, ou quem sabe o próprio Diabo.

Pois bem, naquilo que não depende do narcisismo dos partidos políticos radicais, nem da falta de visão de algumas instituições bancárias, há realmente boas notícias para nos animar. Isto porque o setor do turismo, que foi de longe o que mais sofreu nestes últimos anos, tem agora uma oportunidade de ouro para recuperar o que perdeu. Querem provas para esfregar no nariz do gerente de conta? Então aqui vai:

1. Vontade. Viajar está no topo de todos os inquéritos de consumo recentes sobre as atividades que as pessoas mais querem fazer quando a covid acabar. É na verdade o segundo ponto mais popular depois de "abraçar os amigos".

2. Poupanças. Milhões de funcionários públicos e de trabalhadores do privado que tiveram a sorte de manter o trabalho fizeram nos últimos dois anos o maior aforro das suas vidas. À força, é verdade, mas fizeram. E vão obviamente gastá-lo a celebrar a liberdade (moralistas e populistas da política... boa sorte).
Ponto de ordem à mesa: mas estes pontos são válidos para nós, para a Grécia ou para o Belize. É verdade. Mas agora vêm os argumentos exclusivos da nossa realidade:

3. 2021. Entre agosto e novembro do ano passado, quando os europeus tiveram a primeira oportunidade (modesta) de viajar, o turismo nacional saltou logo para resultados inesperados e faturações próximas de 2019 (que já tinha sido o melhor ano de sempre). Ora, se foi assim com a nuvem negra da covid, imaginem quando as máscaras caírem e os nossos mercados mais importantes, o brasileiro, o americano e o canadiano, regressarem a sério aos aviões.

4. Tendência Portugal. Não há nenhum estudo que preveja, com argumentos sérios, quaisquer mudanças nas tendências internacionais de consumo e de viagens. O que quer dizer que também não há razão para acreditar que possamos perder o hype de 2019. O mundo, tudo indica, recomeçará onde acabou - e nós estávamos na pole position.

5. Escala. Grandes mercados turísticos como Espanha, França e Itália, cujos resultados dependem muito de volume, vão demorar mais a recuperar. Pequenos mercados, como o nosso, enchem-se de turistas assim que levantam os primeiros aviões. Por uma vez, portanto, vai saber bem ser o mais pequeno da sala.

6. Turismo de negócios. Tanto pela aprendizagem do teletrabalho como pelos cortes orçamentais das empresas, espera-se que este seja o tipo de turismo que mais tempo levará a recuperar. Um problema trágico para grandes cidades europeias, como Londres, Paris e Madrid, que são grandemente sustentadas por estes turistas, mas que não é relevante para Lisboa e Porto. Mais uma razão má, portanto, que agora nos dará uma importante vantagem relativa.

7. Short-break. Por razões óbvias, quem quer voltar a viajar vai começar pelas estadas curtas, citadinas, antes de atravessar o planeta. São viagens mais baratas, mais fáceis de planear e enquadradas num campeonato onde Lisboa e Porto são campeões de audiências.

8. Nómadas digitais. As grandes tecnológicas começaram a moda, mas milhares de outras empresas estão a segui-las. O trabalho remoto é uma tendência que vai seguramente manter-se nos próximos meses, talvez anos. E Portugal, mais uma vez, lidera quase todas as listas de destinos ideais para este novo turismo de longo prazo.

E há mais, na verdade, que não cabe neste espaço. O potencial é enorme. Mas como tudo na vida, não chega tê-lo, é preciso aproveitá-lo. E será muito mais difícil fazê-lo num país distraído com eleições desnecessárias e debates públicos sobre castrações químicas, do que num centrado e equilibrado, onde a política não brinca com os nossos negócios.

Presidente e diretor criativo do Time Out Market

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