Opinião

Como vencer no comércio: o grande desafio do tempo

José António Rousseau

A evolução do comércio ao longo dos anos tem sido um fenómeno complexo e, por vezes, contraditório, tendo já sido qualificado na esteira de Schumpeter como um processo de destruição criativa.

Muitas teorias têm sido explanadas para justificar esta dinâmica transformista, mas nenhuma até agora conseguiu de forma cabal e completa prever ou explicar as alterações verificadas. Contudo, sabemos hoje que a energia (Einstein), a matéria (Lavoisier) e também o comércio (Rousseau), possuem a propriedade da inércia ou massa, traduzida por Lavoisier, de forma genial e sintética, na afirmação de que “Na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.

Sabemos que a noção de resiliência foi usada originalmente pelo cientista inglês Thomas Young (1807) e adotada pela Física, que a utiliza para caracterizar a propriedade, através da qual a energia armazenada num corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão causadora da deformação elástica, isto é, a capacidade concreta de conseguir voltar ao seu estado inicial e natural de excelência, superando uma situação critica. As ciências sociais tomaram este conceito emprestado definindo resiliência como a capacidade, de um indivíduo ou de uma organização, para lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas sem entrar em crise e conseguindo ultrapassá-las.

A empresa resiliente desenvolve assim a capacidade de recuperar e se moldar, novamente, a cada obstáculo e a cada desafio, de adquirir competências de ação, que lhe permitam adaptar-se melhor a uma realidade económica imprevisível e a agir de forma adequada e rápida, resolvendo os problemas que lhe são colocados.

Em particular, numa empresa comercial, nomeadamente no comércio independente e integrado, a resiliência é a capacidade de promover as mudanças necessárias para atingir os seus objetivos, de manter as competências e habilidades, mesmo diante das adversidades, de antecipar crises, prever adversidades e saber preparar-se o melhor possível para elas.

Seria até desejável que as empresas comerciais fossem protagonistas e agentes das mudanças no mercado, tornando-se mais flexíveis, leves e consistentes, conseguindo crescer, mesmo em ambiente de mudança e adversidade e antecipando os próprios acontecimentos, conseguindo deste modo contribuir para transformar a realidade.

É um facto visível que o retalho integrado consegue ser mais resiliente que o retalho independente, porque este, atavicamente, resiste demasiado à mudança. Os comerciantes independentes necessitam de mudar a pele e adquirir sangue novo, de ter uma nova visão e de adotar novos processos, de lançar novas marcas ou insígnias. A franquia, os centros comerciais e as diferentes formas de comércio associado, atualmente existentes, são algumas das soluções em alternativa.

Mas o comércio tradicional independente padece de um pecado original, de uma marca genética que lhe traça inexorável o seu destino: os ciclos de vida da loja e do comerciante, seu proprietário, são iguais e estão sobrepostos. Quando o comerciante é jovem a loja ainda que pequena ou mal trabalhada, vai funcionando bem. Mas, quando o comerciante começa a envelhecer a loja também envelhece e vai ficando parada no tempo. E, quando o comerciante se reforma ou morre, a loja também fecha as portas e sai do mercado.

Quando tal fim não acontece (e só em Lisboa temos vários casos de lojas independentes, nomeadamente, a Barbearia Campos, a Casa das Velas do Loreto ou o Hospital das bonecas, no mercado Lisboeta há mais de cem anos), a resiliência das empresas comerciais verifica-se sempre que estas conseguem enfrentar com sucesso os Adamastores das pressões e crises económicas, das constantes alterações de mercado e das inesperadas mudanças de hábitos de consumo, no fundo, sempre que as empresas conseguem vencer o grande desafio do tempo.

José António Rousseau (Ph.D) é consultor, docente e investigador da UNIDCOM /IADE/IPAM

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