Conciliador ou nervoso?

Quinta-feira, nova reunião do conselho de governadores do Banco Central Europeu (BCE).

Os analistas antecipam um presidente conciliador e generoso. Mas o que o italiano Mario Draghi, bem como outros banqueiros centrais do mundo, começam a mostrar é nervosismo. A ansiedade, a desilusão e, sobretudo, a preocupação perante o insucesso das suas políticas começa a sentir-se. Nas declarações públicas e nos incómodos silêncios.

Na última semana, Jackson Hole, a estância de pesca norte-americana, voltou a receber os governadores dos bancos centrais de vários países e zonas económicas. Objetivo: encontrar a saída para o literal buraco onde se enfiou o sistema financeiro na sequência da crise de 2008. Sem resultados.

Na madrugada desta segunda-feira, Haruhiko Kuroda, um desesperado governador do Banco do Japão, defendeu que se deve ir mais longe nas taxas negativas e nas compras de ativos. Kuroda frisou, aliás, estar disposto a tomar medidas “drásticas” para atingir uma inflação de 2%, o mesmo objetivo do BCE e o valor considerado adequado para garantir a estabilidade dos preços. (O Japão conhece como nenhum outro país os resultados da perigosíssima e resistente deflação).

Quanto à zona euro os dias não são muito diferentes. O BCE conta, para já, com sinais nada animadores de uma economia anémica. A taxa de inflação, em agosto, manteve-se igual ao valor de julho, em 0,2%, segundo as mais recentes previsões do Eurostat. Os indicadores que medem a confiança dos empresários e dos consumidores mostraram, no mês passado, uma queda acima da esperada pelos analistas. O valor mais baixo em um ano. A taxa de desemprego na zona euro mantém-se na casa dos dois dígitos: 10,1%, em julho. E, sobretudo, nos países mais pobres, notam-se enormes dificuldades na recuperação do emprego. Tudo isto e muitas outras coisas resultam, obviamente, em taxas de crescimento entre 1% e 2%. Menos uma décima pode gerar uma revolução.

É, por isto, provável que, esta quinta-feira, Draghi escolha continuar a despejar mais e mais dinheiro junto dos bancos europeus, na esperança de que desta funcione. É, realmente, de esperança que o BCE tem vivido ao longo dos últimos meses. Mas, à espera. Não só o BCE, mas também outras instituições europeias, alguns estados-membros da União Europeia, investidores, empresários e famílias, todos enrodilhados numa política de austeridade, sem qualquer margem para outros estímulos, eventualmente mais eficazes, ao crescimento económico.

Assim se vai gastando o tempo, sem consciência de que os mercados podem já estar viciados em baixas taxas de juro. Já se admite a possibilidade de se vir a viver neste angustiante cenário macroeconómico durante uma geração. E, afinal, o otimismo e o espírito conciliador de Draghi não serão mais do que o véu de uma preocupante inquietação.

Jornalista e diretora do Dinheiro Vivo

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de