Ricardo Reis

Confia nos bancos?

António Domingues, ex-presidente executivo da Caixa Geral de Depósitos, à chegada da comissão parlamentar de inquérito. Fotografia: Tiago Petinga/Lusa
António Domingues, ex-presidente executivo da Caixa Geral de Depósitos, à chegada da comissão parlamentar de inquérito. Fotografia: Tiago Petinga/Lusa

"Nos últimos cinco anos, quando um banqueiro vai ao Parlamento, normalmente é para ser massacrado com perguntas agressivas sobre as contas"

Antes da crise, quando um banqueiro era chamado a uma comissão parlamentar, normalmente isso acontecia para se investigar a interferência do governo no setor financeiro, ou para ele confessar os seus medos sobre o estado das finanças públicas, ou para ele partilhar o seu conhecimento sobre o estado da economia.

Nos últimos cinco anos, quando um banqueiro vai ao Parlamento, normalmente é para ser massacrado com perguntas agressivas sobre as contas da instituição que dirige. Independentemente do banqueiro, a atitude dos deputados representa bem a desconfiança atual que a população tem em relação aos bancos.

Que consequências terá esta desconfiança no futuro do mercado financeiro? Será que daqui a uns anos este mau momento passará e ser banqueiro vai voltar a ser uma ocupação com prestígio social? As pessoas vão hesitar em depositar as suas poupanças no banco, ou deixar de se comportar de forma honrada e leal nos seus empréstimos à habitação?

Três economistas, D’Acunto, Prokopczuk e Weber, recentemente estudaram um episódio histórico que pode ajudar a responder a estas perguntas: a perseguição nazi dos judeus. Os judeus são há séculos associados ao setor financeiro. Na Alemanha da II Guerra Mundial, esta associação era especialmente forte porque era promovida pela propaganda nazi. Em inúmeros discursos, Hitler referia-se aos judeus como especuladores que controlavam a Bolsa de Valores. Parte do ódio aos judeus era um ódio aos bancos e às instituições financeiras.

Os três economistas notaram que houve enorme variação geográfica no apoio ao partido nazi e no número de episódios de perseguição de judeus. Até certo ponto, esta variação corresponde à variação na extensão da desconfiança que as pessoas tinham em relação à Bolsa. Aliás, os economistas mostram que nas zonas onde houve muito antissemitismo persiste até hoje maior desconfiança em relação ao setor financeiro.

O seu resultado principal é marcante: nas zonas com muitos ataques a judeus na década de 1930, hoje, mais de 70 anos depois, é menor a fração de pessoas que põe as suas poupanças na Bolsa. Mesmo em províncias ao lado uma da outra, e tendo em conta uma série de outras diferenças, onde havia maior desconfiança na Bolsa em 1930, há hoje menos investimentos em ações. Esta associação é independente de haver muitos ou poucos judeus na região, quer na Idade Média quer agora, e é independente dos anos médios de escolaridade na zona.

Estes resultados mostram que a desconfiança em relação ao sistema financeiro persiste por muito tempo. Eles sugerem que o futuro do nosso incipiente mercado obrigacionista pode estar comprometido por décadas por causa dos lesados do BES. Ou que o exíguo mercado de fundos de investimento não vai crescer enquanto durar a memória do BPP.

A confiança sempre foi um dos maiores ativos de um banco. O maior legado da crise financeira talvez seja a perda desta confiança. A maior preocupação é quanto tempo vai demorar a reconstruí-la.

Professor de economia na London School of Economics, em Londres

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