Opinião

Construir a Cultura da Empresa numa força de trabalho remota

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Jan Wildeboer, EMEA Open Source Evangelist, Red Hat

A opinião de Jan Wildeboer, EMEA Open Source Evangelist, da Red Hat (fornecedora mundial de soluções empresariais de software de código aberto)

À medida que as empresas aprendem a gerir uma força de trabalho totalmente remota, um dos principais desafios que enfrentam é como manter e até criar uma cultura da empresa que ofereça suporte a trabalhadores remotos. Esta mudança drástica, que nos fez transitar do escritório para o trabalho remoto praticamente da noite para o dia, colocou uma enorme pressão sobre as organizações. É importante lembrar que isto não é o business as usual, pelo que as organizações não devem tentar replicar a cultura que tinham. Por enquanto, nos locais onde estamos isolados todos têm uma nova cultura, criada dentro da sua própria casa.

Teria sido impossível replicar a cultura que existia num escritório – o espaço físico e as áreas de convívio desapareceram. Os colaboradores já não estão suficientemente próximos uns dos outros para terem conversas informais. Obviamente, há muitas ferramentas de colaboração disponíveis que podem ajudar a promover uma conexão, mas elas não conseguem replicar a interacção cara-a-cara. A realidade é que não se pode transportar a cultura que se pensa ter para uma força de trabalho remota.

Nestes tempos, podemos procurar inspiração nas comunidades open source. Pela sua própria natureza, as comunidades open source são distribuídas e o que as une é um interesse partilhado em trabalhar de forma colaborativa na construção de algo. Cada comunidade open source tem uma cultura própria, seja criativa e orientada para as artes, seja mais focada no trabalho. Geralmente, em cada uma delas são estabelecidas regras para ajudar a comunidade open source a prosperar, mas não a ponto de sufocar o envolvimento e a criatividade.

Neste mundo do trabalho a partir de casa, as organizações devem levar isto em consideração para indivíduos e equipas inteiras, procurando construir uma cultura baseada na confiança e na liberdade. Quem exige que os colaboradores estejam “no trabalho” às 9h, por exemplo, ou espera 8 a 10 horas de trabalho por dia da parte deles, está a perder a maior oportunidade de se concentrar em objectivos e gerir resultados e benchmarks.

A inovação que ocorre nas comunidades open source não é fruto de processos rígidos ou tempo gasto em projectos. Ela vem da liberdade de trabalhar em ideias que ajudam a impulsionar o projecto e de um sistema que permite que essas ideias venham de qualquer lugar, independentemente da experiência, da demografia ou das competências.

O open source depende de uma troca livre de opiniões, ideias e conhecimentos. A liberdade alimenta o nosso crescimento e impulsiona o progresso. Todos os nossos colaboradores estão agora a trabalhar a partir de casa e podem escolher quando e como aparecerão. O que é crucial aqui é também sermos responsabilizáveis pelas nossas acções – isto significa que confiamos uns nos outros para cumprirmos aquilo a que nos comprometemos, mas não estamos constrangidos no modo como o podemos cumprir.

Se conseguir capacitar os membros da sua organização, que estão isolados em casa, de modo a trabalharem da maneira que melhor lhes convier, terá como recompensa um grupo de colaboradores que encontrou a solução mais adequada a cada caso individual e que tem maior probabilidade de ser produtivo. Isto só funciona quando as regras e barreiras que podem sufocar a criatividade são removidas.

A cultura é um processo, não é um objectivo

É importante lembrar que nenhuma empresa tem uma cultura. Pode haver uma ideia abrangente do que será essa cultura, mas a implementação será local, a nível geográfico, a nível departamental e também a nível individual. As equipas residentes na Arábia Saudita interpretarão uma cultura da empresa de maneira muito diferente das que estão no Reino Unido. As equipas de vendas terão uma visão muito diferente da cultura quando comparadas com os recursos humanos ou o marketing, por exemplo. A ideia abrangente é o que une uma empresa e é a interpretação local que ajuda as equipes a unirem-se.

Devemos encarar o nosso ambiente actual de trabalho a partir de casa como outra derivação da cultura da empresa. O que podemos fazer é aceitar a nova realidade e usá-la de maneira produtiva. Foi criada uma enorme oportunidade para as organizações revisitarem a sua cultura. Ao fazê-lo, estas irão, muito provavelmente, descobrir talentos nas pessoas que, em situações normais de trabalho, passariam despercebidos.

Muitos de nós já vimos comunidades de colaboradores unirem-se em torno de interesses partilhados. Na Red Hat, os associados estão a levar a cabo as suas próprias sessões remotas de ioga, as equipas geograficamente dispersas estão a agendar chamadas para ‘café e novidades’ em vez de reuniões puramente relacionadas com o trabalho, e ainda existem encontros após o trabalho, ainda que sejam remotos. Estas ‘Comunidades de Prática’ unem as pessoas e devem ser incentivadas.

Temos uma enorme oportunidade de abraçar estas ideias que ajudam a unir pessoas e equipas e a promover uma comunidade mais unida dentro das organizações. O isolamento forçado irá terminar e as pessoas poderão regressar aos seus escritórios. Mas não devemos regressar ao caminho em que estávamos antes. Devemos tentar adoptar o que funcionou tão bem no trabalho remoto e remover o que não funcionou nos ambientes de escritório.

* Jan Wildeboer, EMEA Open Source Evangelist, Red Hat

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