Contentar-se com quase nada é hipotecar a exigência

Não é do governo a culpa da crise brutal que se abate sobre o país nem cabe ao Estado resolver todos os males deste nosso mundo português. Esta é, aliás, uma lição que devia ser aprendida pelos que levantaram a voz em êxtase pelo papel que as políticas públicas assumiram na gestão da pandemia - menos em confinamentos desajustados e que não evitaram a morte dos que deveriam ter sido protegidos, mais nos apoios cozinhados em Bruxelas e concertados para os países-membros resistirem. A verdade é que o contexto pandémico foi, e deve ser, uma exceção. O Estado social não pode ser um Estado Pai Natal - mesmo esse só vem uma vez por ano - e Portugal não pode entregar-se em mãos alheias a troco de esmolas se quer verdadeiramente inverter o ciclo e começar a crescer e a diferenciar-se pela positiva entre os parceiros europeus.

No correr normal das coisas, é ao mundo real que cumpre resolver os seus problemas, cabendo ao Estado intervir na regulação, medir desequilíbrios e apoiar os mais frágeis da sociedade. Acontece que a crise que hoje vivemos, empurrada por uma inflação descontrolada que abalou e fez ruir todos os pressupostos de vida e de negócios, é também um momento extraordinário. E requer por isso que se providencie ajustes que ajudem a ganhar tempo para a adaptação urgente aos novos pressupostos, que já poucos duvidam serem uma nova normalidade.

Isso implica políticas públicas macro, concertadas a nível europeu de forma a nivelar as hipóteses de países mais pobres e menos capazes concorrerem com os mais ricos e eficientes, mas também ação de curta distância. E se é verdade que as contas públicas saudáveis são prioritárias num contexto de recessão ao virar da esquina - sem elas, não há crédito disponível, muito menos a juros comportáveis para a nossa realidade, o que ressuscita os fantasmas do bem recente resgate e das dificuldades exigidas para retomar o rumo do país -, também o é que há opções políticas que podem fazer grande diferença sem muitos custos. Como prescindir de receita fiscal em nome do mais ágil funcionamento da economia e da tão necessária valorização dos salários.

Retirar peso fiscal e custos de contexto do caminho das empresas portuguesas é mil vezes mais eficaz do que abrir mais linhas de crédito para pagar contas correntes, aumentando ainda mais o já brutal nível de endividamento do país. Não foi essa, infelizmente, a escolha do governo no pacote de apoios que lançou nesta semana para as empresas, e que mais não representa, para a maior parte do tecido empresarial português, do que um grande bolo de empréstimos de acesso condicionado a infindáveis vírgulas e adversativas. São os truques a que António Costa nega que recorre, mas que são evidentes.

Esperemos que o Orçamento do Estado que chegará daqui a três semanas tenha menos ginga comunicativa e muito mais medidas de eficácia assegurada. Mas isso só poderá acontecer se recuperarmos exigência, em vez de nos resignarmos ao que temos. A começar pelos passos que cada um de nós dá. Só assim o governo deixará de trabalhar para os votos e os sorrisos e começará a preocupar-se em construir um Portugal melhor.

Sobe&desce

SOBE: João Manso Neto, CEO da Greenvolt
"Pensar no futuro é ótimo, mas o desafio é, com a tecnologia disponível, com aquilo que existe, o que é possível fazer." O CEO da Greenvolt distingue-se cada vez mais como uma voz lúcida e livre no panorama nacional. É fácil falar em objetivos de descarbonização, é evidente que a transformação energética tem urgência absoluta, mas não se pode chegar ao destino sem ter meios para fazer a viagem. E saltitar entre excitações com a solução milagrosa do momento pouco ajuda. Apesar dos enormes investimentos das empresas em apostas muitas vezes às cegas para chegar mais depressa às metas, o que falta desenvolver em tecnologia e infraestruturas leva tempo. E as escolhas necessitam de reflexão e cuidado, se não queremos correr o risco de optar por soluções que podem parecer viáveis a curto prazo mas estão longe de ser as melhores no horizonte mais permanente ou de tornar a energia num bem de luxo, inacessível a grande número de famílias e empresas. Portugal precisa de mais pessoas que pensem e não receiem falar com clareza.
DESCE: Mariana Vieira da Silva, ministra da Presidência
Seis meses depois da notícia de que saía com poderes reforçados na configuração do terceiro governo liderado por António Costa, o seu primeiro em maioria absoluta, Mariana Vieira da Silva é remetida para segundo plano. Nomeada para assumir o lugar de uma espécie de vice do primeiro-ministro, tomando as rédeas sempre que necessário e substituindo o chefe do Executivo em continuidade, acabou por se tornar, neste meio ano, pouco visível e praticamente irrelevante, ao contrário do papel que se lhe perfilava. Tornou-se uma espécie de porta-voz que apenas lê os recados deixados por Costa. A maior prova disso é o primeiro-ministro ter aproveitado a nomeação do novo gabinete da Saúde para nomear um secretário de Estado Adjunto. Homem do aparelho socialista, Miguel Alves vem ocupar o lugar de onde Mariana Vieira da Silva saíra há seis meses para ganhar protagonismo no governo, uma missão em que não foi bem-sucedida. Costa nunca perde tempo...

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