Imobiliário

Contra os fatalismos

Vistas de Lisboa.
(Leonardo Negrão / Global Imagens)
Vistas de Lisboa. (Leonardo Negrão / Global Imagens)

Sem uma visão global dos problemas que afetam o setor, estamos condenados a uma política pouco consistente no imobiliário

O português guarda dentro de si um desejo secreto, consubstanciado numa expressão que está sempre ali à beira da boca, pronta a sair cá para fora assim a oportunidade o proporcione. É o “eu bem avisei” ou o “eu já tinha dito”, reflexo evidente do fatalismo luso e, é forçoso dizê-lo, da nossa incapacidade de aceitar o sucesso alheio. No caso do setor imobiliário, está meio país à espera de uma crise para nos mais diversos areópagos se afirmar com gravidade que “toda a gente avisou” ou “toda a gente já tinha dito”. Fala-se de “bolhas” com a mesma facilidade com que se troca uma receita de bacalhau, esgrimem-se números como quem regateia numa feira. Ora a verdade é que nada disto corresponde à realidade. O setor imobiliário tem problemas e comporta riscos, mas isso não é muito diferente de qualquer outro da economia nacional.

Depois de uma crise profunda, era natural que o mercado imobiliário iniciasse um movimento de retoma. Tal deveu-se não só a uma melhoria clara do ambiente económico, nacional e internacional, mas também pelo advento do turismo enquanto setor charneira do crescimento do país.

A dinamização do alojamento local, o fluxo de turistas e a crescente procura de habitações, em especial nos grandes centros urbanos, fez mexer um mercado que estava estagnado, multiplicou oportunidades de negócio e trouxe uma nova abordagem na forma como o imobiliário se desenvolve em Portugal. Proporcionou ganhos, criou emprego e mudou de paradigma. A habitação familiar permanente deixou de ser o foco quase exclusivo, surgindo uma nova vaga de investidores, com novos negócios e abordagens. Muito se tem dito e escrito também sobre a voragem do setor imobiliário, designadamente sobre metodologias e formas de atuação. Haverá maus exemplos. Há em todos os lados. Mas a legitimidade dos negócios é inatacável.

Olhando para o futuro, este ano de 2019 será de crescimento, se bem que com alguns ajustamentos, próprios de um setor de negócios dinâmico. Há mercados em evidente crescimento, mas também se irá manter o desequilíbrio entre oferta e procura que tem vindo a afetar esta área em Portugal. O incremento da construção, a revisão da elevada fiscalidade que pende sobre o setor ou a manutenção da abertura que a banca tem vindo a demonstrar para apoiar o imobiliário, são algumas das medidas que considero fundamentais para a sustentabilidade deste mercado. Não se pode é querer matar a galinha dos ovos de ouro com legislação avulsa, que apenas vem responder a problemas pontuais e a grupos de pressão. Sem uma visão global dos problemas que afetam o setor (e quem dele vive e quem nele vive), estamos condenados a uma política pouco consistente, ao sabor dos ventos que vão soprando daqui e dali, sem um plano consistente em que todos os players do mercado sejam ouvidos e se procurem harmonizar posições e responder a anseios.

Votos de um ano de 2019 repleto de sucessos e… grandes negócios

Miguel Aguiar é CEO da KW Business

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