COP 26: Um acordo é melhor que nenhum acordo

Era preciso mais, muito mais, um verdadeiro compromisso sob o fim do carvão a começar desde já. O mesmo sobre os outros combustíveis fósseis, sobre a desflorestação, sobre o consumismo desenfreado, etc. Mas, apesar de tudo, logrou-se um consenso no papel sobre os 1,5º C, sobre o médio e longo prazo e a neutralidade carbónica, mais ano menos ano. E, sobretudo, a importantíssima admissão de que as emissões têm de ser reduzidas em 45% até 2030.

Na realidade, o que se passar até 2030 é que é mesmo importante, já que se conseguirmos os 45%, estaremos a adotar as medidas importantes para a mudança necessária, incluindo o mercado e a cultura desenvolvimentista associada (a do consumo pelo consumo). E, depois, haverá mais facilidade em "entrar nos eixos", de forma mais natural e a permitir que futuros COP possam aprovar uma linguagem mais forte e estratégias mais concretas e com mais "dentes". Até porque, então, o leme estará nas mãos de outras gerações de políticos!

As políticas energéticas, ambientais e outras (o lado da oferta, em linguagem técnica) deverão procurar induzir as necessárias mudanças de comportamento (o lado da procura) de forma inteligente e objetiva. E fazê-lo já, para cumprir 2030!

Contudo, para o cidadão comum, sem uma literacia específica nestas matérias, continuará a ser difícil iniciar, em termos concretos, a mudança de atitude que corresponde à nova Cultura, mesmo quando a sua urgência se compreende e se aceita.

Em geral, a solução do problema passa pela criação de uma nova oferta, e a sua adoção virá como algo mais natural do ponto de vista do cidadão, isto é, o ponto de vista da procura.

Alguns exemplos:

- dizer ao cidadão comum que deve consumir menos carne produzida de forma industrial e insustentável, é uma proposição inútil, enquanto não houver alternativas a essa carne (oferta), produzida de forma sustentável e igualmente saborosa (algo que parece ser tecnologicamente possível, mas cujo desenvolvimento está ainda em curso).

- pedir ao cidadão para usar mais os transportes públicos (procura) é inútil se não houver uma oferta de qualidade para os mesmos, algo que estamos muito longe ainda de dispor.

- tornar a eletricidade numa forma de energia com presença cada vez mais forte na nossa vida, exige que esta seja cada vez mais produzida com base em energias renováveis

Entretanto será possível e importante ir procurando criar novos hábitos na linha dos que deveremos adotar no futuro como, por exemplo, ir fazendo o discurso das vantagens do recurso crescente à produção local da comida que comemos, ou da redução de consumos supérfluos, como os ligados ao vestuário ou, sobretudo, a outros bens de consumo não essenciais

Mas, mesmo que tudo se compreenda bem e aceite, é difícil conseguir que os cidadãos reduzam já o consumo daquilo que percecionam como proporcionando prazer. Assim, será necessário ajudar à adoção de novos comportamentos com novos instrumentos, bem desenhados para o efeito. E com resultados mensuráveis.

Por exemplo: teremos de reduzir o consumo de combustíveis em 45%. Isso inclui o que consumimos nos nossos automóveis privados. Isto é, deveríamos estar a pensar em garantir uma redução de combustíveis per capita de 5% ao ano durante os próximos 9 anos. A concretização desta ideia para o cidadão comum, nas suas deslocações privadas, poderia ser conseguida com a atribuição a cada cidadão (com carta de condução) de um cartão (de crédito) com um limite do número de litros de combustível que pode consumir por ano, calculado no ano inicial, a partir do valor do consumo no ano anterior [1], e descontando o correspondente número de litros, em cada abastecimento. Nada impediria que um cidadão utilizasse o cartão do vizinho, familiar ou amigo, uma vez esgotado o seu, ou até que aceitasse gastar crédito seu do ano seguinte. O essencial é que, no ano seguinte, o crédito de cada um seria de novo reduzido em 5%, para se caminhar de forma objetiva para os objetivos de redução de emissões. E nada impede de se encontrar o equivalente desta ideia para os setores dos Serviços, Agricultura e Indústria, para as suas frotas ou para o seu consumo em geral, precedido de um estudo que distinga critérios e valores para cada setor, em função também da existência (ou não) de alternativas.

Uma outra ideia concreta é a de se criar uma cultura objetiva para um recurso crescente a materiais sustentáveis, como a madeira, por exemplo, na construção de novos edifícios, para lá da adoção de práticas de eficiência energética através de regulamentos mais exigentes na construção e na recuperação dos edifícios.

O uso da madeira na construção, com as técnicas de hoje, pode alargar-se até às funções de estrutura dos próprios edifícios, pequenos ou grandes, de pisos múltiplos, etc. É uma forma excelente de se fixar naturalmente CO2 da atmosfera e evitar as emissões associadas à produção dos materiais convencionais, podendo assim falar-se de uma construção sustentável e renovável!

Em resumo: aos Governos compete atuar com medidas concretas, para lá da definição de metas, dando-se pressa nessa atuação; aos Cidadãos compete mudar para um comportamento diferente, em que a busca do bem-estar e do prazer seja feita noutros moldes, perfeitamente alcançáveis e, até, mais satisfatórios!

Manuel Collares Pereira, professor, Investigador, Assessor Científico do Grupo Vanguard Properties

[1] Hoje, em Portugal, queimam-se ~1000 litros por ano, por condutor, podendo ser esse o ponto de partida para o crédito do primeiro ano; é suficiente para permitir fazer ~15000km/ano, dependendo do veículo e da condução de cada um.

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