Coragem! Não tenho alternativa

"O governo deveria ser obrigado a pagar o fecho das atividades - desta forma suportaria politicamente parte dos custos sociais da sua ação."

Para gerir a pandemia, a ciência dá-nos os diagnósticos, cenários de atuação e ferramentas, mas a escolha tem de ser política. Porém, em Portugal não temos diagnóstico - não há dados. Não há cenários de atuação. E não se procura ativamente por soluções. Não há escolhas políticas, há proclamações.

Provavelmente estou a ser excessivamente realista: mas julgo que esta forma de agir não é inocente. Creio que este é mesmo o maior problema na gestão da coisa pública do país: as boas intenções e a virtude são preferíveis à ação. Todos concordamos com a intenção. A ação tem sempre problema - há sempre descontentes que preferem a outra escolha.

Em Portugal, a ação só é empreendida quando tem mesmo de ser - só se tomam decisões quando se atinge 10.000 novos casos por dia. Nessa altura, com o SNS a rebentar, o confinamento é desejado pela maioria da população e os nossos governantes parecem salvadores. Para uns a medida é corajosa: "Ninguém fecha o país de ânimo leve!" Para outros a solução é óbvia: "Não há alternativa." Faz-se assim o pleno, mesmo com alguma contradição: coragem implica escolha.

Há mais particularidades desta solução: o confinamento é uma forte medida de desresponsabilização governamental. Se não resultar a culpa é das pessoas que não ficaram em casa, nunca do governo. Se não resultar é necessário aumentar a dose: "Teremos de aumentar o confinamento." A bem de todos nós, a destruição que esta medida provoca devia ser divulgada com elevado detalhe, e o governo deveria ser obrigado a pagar o fecho das atividades - desta forma suportaria politicamente parte dos custos sociais da sua ação.

Mas havia alternativas. E estando nós no começo do inverno ainda podemos e devemos tomá-las. Elenco algumas óbvias. O alargamento da capacidade do SNS, com privados e sociais. A simplificação das tarefas administrativas do corpo clínico - ainda hoje são os médicos de família a fazer trace covid. A recolha de dados reais de comportamento via painel de consumidores era uma boa medida para testar modelos de propagação. Bem como os testes em massa. Acima de tudo, e lembrando que escrevo num jornal de negócios, cada uma destas medidas devia ter objetivos e métricas de forma a avaliar a sua eficácia e o seu custo social e económico.

Com este racional duvido que a proibição de fecho dos estabelecimentos comerciais até às 13.00 ao fim de semana se mantivesse por muito mais tempo.

Qual o desafio?

A questão que fica no final é a de saber se face à dimensão do problema (10.000 casos por dia) as medidas que indiquei acima seriam capazes de resolver o desafio que temos pela frente. Duvido - julgo que o confinamento nesta fase seria sempre inevitável.

Mas, caro leitor, perdoe-me a audácia, qual é mesmo o desafio que temos? Qual o ponto de chegada que queremos? Superar os 10.000 casos por dia para que número? E qual a pobreza, desemprego, que estamos dispostos a pagar para atingir esse número?

Perante a duração desta pandemia, não faria sentido apostar também e sobretudo em como é que podemos viver com o vírus, aceitando alguns riscos e minimizando o impacto das nossas ações? Ao invés de investir na repressão da atividade social e económica, não poderíamos flexibilizar o mercado de trabalho, a produção, o tempo de lazer e em família?

Quem não gosta do confinamento e do Estado de Emergência não é negacionista - mesmo com ​​​​​​​covid. Quer o melhor que a vida tem para oferecer e exige por isso políticos à altura da situação.

Filipe Charters de Azevedo, é fundador e CEO da DATA XL e da SafeCrop

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