Opinião

Covid-19 e o incentivo para a digitalização das empresas

Fotografia: Rungroj Yongrit/EPA
Fotografia: Rungroj Yongrit/EPA

O coronavírus está a colocar empresas, países e regiões inteiras do mundo em risco, ameaçando tanto a estrutura e os resultados das empresas, como a economia em geral.

A maioria das empresas já têm desenvolvidos Planos de Contingência e Continuidade do Negócio para situações adversas, no entanto, muitas experienciaram interrupções inesperadas na cadeia de fornecimento durante a pandemia que põem em risco a sua atividade e, pior ainda, setores económicos inteiros.

Em momentos como estes os rendimentos podem diminuir, mas as despesas não. Além de gerir a continuidade do fornecimento, é hora das empresas que enfrentam dificuldades financeiras, principalmente setores como o turismo, a hotelaria, o entretenimento, as companhias aéreas e o retalho não essencial, otimizarem as suas despesas de maneira correta, através da gestão da cadeia de fornecimento, por um lado, e da transformação tecnológica, por outro.

Isto é, à medida que esta situação vai evoluindo, muitas empresas mudam a maneira como gerem as suas cadeias de fornecimento. É importante considerar o risco e a resiliência nas estratégias de suprimento, principalmente na compra de material direto. Michael Larner, analista principal da ABI Research, afirma que para mitigar riscos na cadeia de fornecimento, os fabricantes não devem ter apenas um único fornecedor para um material, mas, como a Covid-19 destacou, é necessário diversificar as localizações geográficas.

Menos digitais…

Nesse contexto, vale a pena questionar se a maturidade tecnológica das empresas pode ser um fator positivo para enfrentar a crise atual e imediata, comparada aos procedimentos tradicionais. É decidir se as empresas estão dispostas a superar métodos como a escolha de fornecedores ‘vitalícios’ sem promover a concorrência no mercado, compras físicas, o uso de papel e fax em transações, entre outros. Sistemas do século XX que, no século XXI parecem pouco competitivos para enfrentar ameaças como a atual.

No nosso relatório de 2019, intitulado Transformação digital nas compras: em que ponto estamos agora? revelamos que apenas 2% das empresas automatizaram totalmente os seus processos. O relatório é baseado numa pesquisa global, realizada entre janeiro e abril de 2019, a mais de 300 profissionais de compras, 65% pertencentes a empresas europeias e 17% a empresas norte-americanas, de setores como automóvel, indústria, banca e seguros, entre outros.

Apurámos com o mesmo que 83% das empresas admitiram que não estavam a aproveitar todo o potencial de automatizar os processos de compra, embora a maioria já possua o nível tecnológico necessário para tal.

… a mais

É verdade que Portugal e Espanha não estão entre os principais países europeus em digitalização. Especificamente, em 2019, Portugal ficou em 19º lugar dos países da União Europeia no Índice de Digitalidade da Economia e da Sociedade (IDES) – Espanha ocupa o 11º lugar. Face a 2018, Portugal registou uma pontuação ligeiramente melhor a nível global, bem como em quatro das cinco dimensões consideradas, mas não melhorou a sua classificação. De acordo com o IDES, a melhoria mais significativa corresponde à dimensão dos Serviços públicos digitais nacionais, impulsionada por um aumento considerável da percentagem de utilizadores nesses serviços.

Não obstante, 82% dos profissionais que participaram no Barómetro sobre o impacto comercial da COVID-19, elaborado pela Good Rebels com a colaboração da Associação de Marketing de Espanha, prevê que a crise promoverá a inovação e o desenvolvimento de novos modelos de negócios.

Ainda, de acordo com a pesquisa do Global Capital Confidence Barometer, realizada pela EY a 46 países, em fevereiro e março, foi possível concluir que o encerramento da atividade significou que mais da metade dos entrevistados encontra-se a tomar medidas para mudar a cadeia de fornecimento. Ao mesmo tempo, 36% estão a acelerar os seus investimentos em automatização e cerca de 70% estão a avançar ou a readaptar a sua transformação digital.

Nesse sentido, a situação de confinamento que estamos a viver em Portugal e em Espanha está a assumir uma interrupção temporária na atividade económica das empresas. Contudo, quando superarmos esta circunstância, estou convencido de que muitas das empresas acelerarão a digitalização, em particular na atividade que nos diz respeito: a dos seus processos de compra. Será uma questão de sobrevivência, de adaptação necessária a um clima mais incerto que exige decisões inovadoras.

Portanto, é necessário ajudar as empresas, trabalhando em estreita colaboração, para que estas superem as dificuldades atuais, analisando e priorizando as suas despesas. O objetivo, derrotar um inimigo comum e invisível, sim, mas também saber quais as ferramentas que temos e como usá-las para superar com sucesso uma circunstância tão difícil quanto a atual.

Por Carlos Tur, Country manager JAGGAER Espanha e Portugal

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