Opinião: Ricardo Reis

Crescimento e ambiente

William Nordhaus (à esquerda) e Paul Romer (à direita) foram os economistas premiados pelo Prémio Nobel da Economia em 2018. Fotografia: Universidade de Yale e EPA
William Nordhaus (à esquerda) e Paul Romer (à direita) foram os economistas premiados pelo Prémio Nobel da Economia em 2018. Fotografia: Universidade de Yale e EPA

O dinheiro ganha normalmente uma taxa de juro positiva: as pessoas só poupam se o investimento gerar mais dinheiro daqui a uns anos.

Metade do Prémio Nobel da Economia deste ano foi para Bill Nordhaus, por ter combinado economia e climatologia na análise das alterações climáticas.

A maioria dos investigadores no estudo das alterações climáticas é ótima a caracterizar os efeitos da ação humana no clima e a prever evoluções futuras no nível do mar ou na temperatura. Mas, depois, eles saltam desta análise científica cuidada para a recomendação de políticas muito ingénuas que aumentariam a pobreza de forma catastrófica. Ainda há uma semana, o IPCC, que reúne os melhores climatologistas do mundo, divulgou a sua última previsão de que a temperatura da Terra pode subir 1,5 graus. Para resolver o problema, eles recomendam que se deixe de usar petróleo, se eletrifique o mundo, se redesenhem cidades e se reduza drasticamente as explorações pecuárias. Os custos seriam gigantescos.

Outra dificuldade surge em pesar benefícios daqui a 30 ou 100 anos contra os custos hoje. É um facto que a vasta maioria das pessoas prefere ter um carro (ou qualquer outro bem) hoje em vez de um carro daqui a dois anos. 1 O relatório Stern avançava argumentos morais e filosóficos para dar quase o mesmo peso à vida ou ao consumo daqui a 100 anos ou hoje. Mas a realidade dos comportamentos humanos mostra que as pessoas põem menos peso nos custos futuros das alterações climáticas do que nos custos presentes em mudar o nosso modo de vida.

Nordhaus ganhou o Prémio Nobel pelo seu “modelo integrado” que faz previsões sobre o clima com um bloco que imita o trabalho dos climatologistas, e outro bloco onde agentes económicos consideram custos e benefícios. Nordhaus insiste em usar preços de mercado para aferir os pesos do futuro, em vez de considerações éticas. Ele conclui que as mudanças climáticas são graves, e devem ser uma prioridade nas políticas em todo o mundo.

Nordhaus (e muitos economistas) defendem há décadas um carbon tax. Porque o consumo de fontes de energia hoje impõe um custo sobre as gerações futuras que irão sofrer as consequências das alterações climáticas, a solução económica correta é aumentar o preço das emissões de dióxido de carbono de forma a que os consumidores atuais internalizem este efeito externo que têm sobre os outros e escolham voluntariamente consumir menos energia ou optar por alternativas com menos custos sobre os outros. A maior parte das proibições e mudanças propostas pelos climatologistas são menos eficazes, desnecessariamente revolucionárias, e falham uma análise de custos e benefícios.

Nordhaus recomenda uma taxa de $30 por tonelada hoje, subindo para $35 em 2020 e $100 em 2050, bem acima dos $7 atuais em Portugal, mas muito abaixo do que o IPCC implicitamente defende. O trabalho de Nordhaus que lhe deu o Nobel exemplifica como a integração entre diferentes ciências leva a análises mais eficazes e conclusões mais robustas.

Professor de Economia na London School of Economics

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