Opinião

Crise demográfica

Familia

Todas as sociedades, em todos os tempos, se viram tentadas a duas opções. Conservar a sua sociedade tal como ela é, ignorando os sinais do futuro no presente, ou adaptando a sociedade do presente para o futuro. Os segundos singraram, na vida social como na vida animal, os primeiros são, mais cedo ou mais tarde, extintos, sem conservarem sequer a memória do que pensam estar a proteger. O saudosismo é mau conselheiro para enfrentar o futuro.

Diz o bom senso que antes de grandes elucubrações filosóficas, devemos olhar os números. Numa rápida análise de alguns indicadores sociodemográficos (INE), verificamos que, em Portugal, a idade média das mães dos primeiros filhos está acima dos 30 anos, cada casal tem em média 1,3 filhos, o número de casamentos baixou, o número de divórcios aumentou, as famílias de recasamento duplicaram e muitas optam por não ter qualquer filho. Aliado a estes factores, a esperança de vida aumentou 10 anos, mas, por outro lado, os jovens mantêm-se dependentes da família de origem até aos 32 anos. A este cenário, junte-se uma taxa de emigração a aumentar exponencialmente entre os 25 e os 30 anos, o auge da idade produtiva, período onde o desemprego é, também ele, bem mais elevado do que a média nacional.

Um estudo mundial realizado pela Google e Kantar TNS conclui que, no campo digital, o mosaico que temos revela que há hoje três vezes mais utilizadores de smartphones do que em 2012. Existem ainda cerca de 5,8 milhões de utilizadores no Facebook, um valor muito significativo considerando que o país tem apenas 10 milhões de habitantes. Paradoxalmente, ou talvez não, Portugal está entre os 10 países da OCDE onde se trabalha mais horas por ano e onde menos se produz, com um valor de trabalho entre os mais baixos do contexto europeu. No que respeita à educação e recorrendo agora ao último relatório da UNESCO, podemos ver que os menores passam entre 850 a 1000 horas por ano dentro das salas de aula, numero acima da média, mas nem por isso o sucesso escolar aumenta e as taxas de abandono da escola diminuem.

Tendo em conta que não se pode falar em paradigmas de mudança quer no trabalho quer na educação sem se falar nos avanços da tecnologia, da globalização, das transformações sociais, políticas e económicas, importa, porém, partir do dramatismo dos números para as oportunidades que importa desvendar para se superarem os desafios e refletir sobre algumas questões que surgem face às transformações ocorridas ao longo dos tempos e que nos transportam para um admirável mundo novo com implicações significativas para as pessoas, organizações e sociedade.

Naturalmente que todas as mudanças têm implicações nas estruturas base da sociedade e facilmente constatamos que fruto de tudo isto, hoje temos famílias diferentes, jovens diferentes, padrões de comunicação também diferentes, empresas com necessidades diferentes. Hoje temos uma sociedade competitiva que exige médias altas para entrar nas faculdades, exige múltiplas competências para ingressar num mercado de trabalho que precisa de poucos e, portanto, só quer os melhores. Hoje fala-se muito de crise. Crise económica, crise social, crise de família, crise de valores, provavelmente crise de existência, num mundo cujos contornos da geografia humana se começam a alterar, ensaiando novas configurações sociais e humanas.

A geração dos nativos digitais está aí, e com ela a certeza que as universidades, as escolas e os seus professores, as empresas e os seus decisores, têm de se reinventar, desenvolver novas metodologias de ensino, ensaiar novas estratégias, desenvolver novas competências.

Alguns de nós, nostalgicamente, dizemos ter saudades dos tempos em os alunos obedeciam aos professores, quando as famílias confiavam nos educadores e enalteciam os seus papeis, quando os colaboradores vestiam a camisola e faziam carreiras piramidais dentro da mesma empresa de lá saindo para a reforma.

Porque continuamos de forma nostálgica a falar do passado que já não existe, esquecendo-nos de construir o futuro no nosso presente? Qual o sentido de preservar algo impedindo que o que queremos preservar se adapte às novas idiossincrasias? Vamos continuar sem nos superamos? Vamos continuar a queixar-nos que os alunos não nos ouvem, que querem estar sempre agarrados aos computadores e telemóveis, que são indisciplinados, que não trabalham, que são desligados e desmotivados? Ou vamos, definitivamente, encontrar novos caminhos?

Se não trabalharmos em equipa, fazendo da gestão das nossas diferenças o nosso valor acrescentado, vamos ficando solitariamente entregues às nossas queixas, contando pelos dedos das mãos os anos que faltam para a reforma cada vez mais longa, esquecendo-nos que a vida é muito curta para nos darmos a esse luxo. Se não utilizamos novos meios, os fins ficam comprometidos, e sem equipamentos inovadores e novos recursos didáticos, os nossos jovens inquietos e já fieis às metodologias multimédia vão questionar-nos, assumindo atitudes que sendo diferentes, são igualmente indiciadoras do seu descontentamento e desmotivação.

Está na hora de fazermos a gestão da mudança nas nossas escolas, nas nossas empresas, na nossa sociedade. A grande revolução das mentalidades só se consegue através da educação, conscientes que os novos paradigmas sociais, só são novos porque diferentes, mas são velhos pela incapacidade que têm de acender paixões, de fazer cada um de nós encontrar em cada dia motivos para a ação. Precisamos urgentemente de novos projetos que nos levem a agarrar desafios que nos fazem sentir úteis, e, perceber que somos motores do nosso desenvolvimento e ativos importantes no crescimento das instituições onde colaboramos.

Constatemos que temos famílias diferentes, que estamos a envelhecer deixando fugir os jovens mais capazes, que muitos de nós estão desempregados em idade ativa considerada como apogeu de concretização das tarefas sociais. Tomemos consciência de que mesmo vivendo mais anos podemos não viver com qualidade, até porque, estamos todos a ficar mais pobres e menos cultos. Olhemos para as boas práticas, vejamos o exemplo das learning organizations, refundemos o conceito de aula, o conceito de empresa, para ficar capazes de ensinar e aprender com recurso a novas tecnologias, transformar a informação em conhecimento, promovendo a dimensão humana que nos une, em contextos propícios à excelência. Precisamos encontrar novos rumos, aumentar o nosso nível de consciência dos fenómenos emergentes a que assistimos, e independentemente dos papeis que desempenhamos, dar resposta à vocação verdadeiramente universal de sermos felizes, a ensinar, a aprender, a trabalhar, mas sermos felizes e percebermos que essa é verdadeiramente a nossa missão.

Professora no IPAM

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