Opinião

Crónica de um (des)emprego anunciado

Fotografia: DR
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A cadeia de restaurantes CaliBurger (Estados Unidos da América), o Henn-na Strange Hotel (Japão) e o supermercado Margiotta Food & Wine (Escócia) acabam de despedir os seus robôs. Comportamento agressivo com os clientes, reduzida produtividade, incompetência, ineficiência e lentidão foram somente algumas das causas apontadas pelas três organizações para colocarem no desemprego mais de 120 robôs humanoides. Uma talvez (ou não) inesperada realidade sublimada num estudo recente da consultora EY: 30 a 50% dos projetos de automação das empresas fracassam numa fase inicial.

Ora, várias questões deverão assaltar-nos quando confrontados com tais dados: afinal, a Inteligência Artificial (IA) substituirá os indivíduos em massa no mercado de trabalho provocando cinco milhões de desempregados até 2020? Serão infundadas as expectativas da humanidade que depositam nas máquinas todas as esperanças para a resolução da maioria dos intrincados problemas? Um futuro onde os dispositivos tecnológicos ditam as regras do mundo a seu belo prazer é mera utopia? Nunca conseguiremos replicar na perfeição o cérebro humano? A nossa finitude é incontornável?

A resposta àquelas perguntas estará sempre condicionada a inúmeros fatores, alguns dos quais ainda desconhecidos neste nosso tempo, mas poderemos sem perigos de maior afirmar: o trabalho assentará na cooperação, interação, relação, diálogo e partilha entre homens e máquinas. Pois os humanos serão indefinidamente muito melhores que os computadores a levar a cabo um conjunto alargado de tarefas específicas. Fundamentalmente, as funções que exigem capacidade de argumentação, raciocínio, decisão, critério e juízo.

Todavia, também é imputável aos indivíduos a quota maior de responsabilidade no avolumado falhanço dos projetos de robotização empresarial. Porquanto a automação é erradamente apresentada como uma solução de substituição na execução de afazeres rotineiros, as empresas encaram a indústria 4.0 como um processo exclusivo do departamento tecnológico, e sobrestima-se o impacto da tecnologia no dia-a-dia das companhias. A utilização incorreta, a escolha equivocada da estratégia de implementação e a falsa crença de que as máquinas oferecerão a possibilidade de trabalharmos menos justificam igualmente larga margem dos insucessos.

Imaginem-se quais seriam os números do ensaio conduzido pela consultora ServiceNow porventura eliminássemos alguns dos constrangimentos acima citados: as empresas com elevado nível de automação têm “seis vezes maior probabilidade de atingir crescimentos anuais de faturação superiores a 15% do que as com fraco índice de automação”. Isto sem quaisquer receios de virmos a perder o emprego. Pois o que observaremos será sobretudo a transferência de papéis homem-máquina-homem.

José Pedro Salas Pires, Presidente da ANETIE

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