Crónica sem laço colorido

2016 começa com quase tudo novo. Valham-nos as 12 passas para que seja, de facto, novo

Eu tentei. Juro que tentei. Procurei em todos os jornais nacionais, revistas, canais de televisão, rádios, sites... e nada. Tudo igual, sem me dar qualquer hipótese. Queria tanto oferecer uma crónica de Natal com laço a condizer, mas o país não parece estar mesmo nada alinhado com o espírito natalício.

Um jovem português de 29 anos morreu num dos principais hospitais do país, por falta de médicos especialistas. Como era fim de semana não estava nenhum de serviço, só segunda-feira. A morte não esperou porque não conhece horários nem cortes orçamentais! Mais um banco a precisar de intervenção e os contribuintes a pagarem mais uma fatura de 2,6 mil milhões de euros. Uma das maiores construtoras portuguesas dá como prenda de Natal aos trabalhadores 500 despedimentos e ainda nem sequer começaram a chegar os novos retornados portugueses de Angola. Afinal, as contas públicas não estão em ordem e o deficit vai ser superior aos anunciados 3%. O novo governo não tem sequer um mês de vida e já aprovou um orçamento retificativo com os parceiros a votar contra. Cheira a nova crise política e ainda mal começou o período de graça do novo executivo. Podia continuar esta infindável lista, mas acho que já ficaram com uma ideia.

Por mais que queira contrariar esta natureza de jornalista, não consigo deixar de ver Portugal, mesmo nesta altura de paz e harmonia, por este prisma. Parece que não saímos deste círculo vicioso e viciado, em que andamos sempre a tentar resolver os mesmos problemas com as mesmas soluções erradas, numa espécie de autismo nacional. Espreito a imprensa estrangeira e apesar dos problemas do mundo vejo os outros países seguir em frente. A Irlanda, com quem nos gostávamos de comparar, já está a recuperar a fama de tigre celta e os irlandeses reconhecem o resultado dos sacrifícios feitos. A Espanha, apesar da confusão eleitoral, começa a mostrar sinais de otimismo e pujança económica, e a França, com uma ferida dolorosa e ainda a sangrar por causa do terrorismo, consegue continuar a lutar com força.

O nosso principal problema não é a produtividade como alguns nos tentaram fazer crer. É antes esta perigosa repetição dos mesmos erros e de muita resignação. Voltamos a vestir os fatos negros de fado e continuamos a preferir a fácil e gratuita reclamação nos fóruns e redes sociais, em vez de agir para mudar. Não admira que os mais novos e os mais brilhantes emigrem. Não porque um qualquer primeiro-ministro os incentivou, mas porque não querem sufocar aqui.

Vamos começar o ano com quase tudo novo. Novo governo, novo presidente, nova economia, novos planos, nova esperança. Os astros não podiam estar mais alinhados para um recomeço verdadeiramente renovado. Infelizmente a realidade parece contrariar até o mais otimista mapa astral. Valham-nos as 12 passas para que o próximo ano possa vir a ser de facto…novo

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