catarinabeato

Crónicas de uma desempregada

Tenho que perder este hábito de levar o meu filho mais velho à escola quase-de-pijama. Este é um texto de números mas será este o pensamento que me perseguirá, ultrapassando todas as angústias traduzidas em números.

Já deixei o miúdo na escola e o carro [um Peugeot 206 sw de 2003 mais 100.000 kms e muita condução agressiva feminina] começa a fazer um barulho estranho. O barulho piora mas penso que faltam apenas 700 metros para chegar a casa.

Na Calçada da Estrela, o meu companheiro dos últimos nove anos – mais do que qualquer outra relação que tenha tido na vida – morre nas minhas mãos. Saio para pôr o triângulo. Tenho que perder este hábito de levar o meu filho mais velho à escolar quase-de-pijama. E chamo o reboque.

Passado meia hora damos entrada no stand da Peugeot mais próximo. Um carro morto e uma condutora quase-de-pijama. Diagnóstico: 2.000 euros. Substituição total da embraiagem e outros palavrões que deixei de ouvir quando vi o orçamento.

Estes 2.000 euros viriam juntar-se aos 1.800 euros que gastei seis meses antes numa revisão geral que envolveu: um problema numa porta, pneus, travões, ar condicionado, óleo e todos os líquidos passíveis de mudança.

Eu tenho como princípio de vida [automobilística e amorosa] que os carros são como as relações: existe um ponto em que começam a dar problemas e nunca mais param. A única solução é trocar. De carro, entenda-se.

Quase-de-pijama e de lágrimas nos olhos (acredito verdadeiramente que a minha imagem neste momento tenha inspirado pena suficiente para que o avaliador tenha ignorado todas as mossas proveninetes da minha condução agressiva) anuncio que o meu velho carro já não sairá do stand.

Quero um carro novo com uma garantia! Não quero mais surpresas nem sustos quando saio de casa de manhã ainda em quase-pijama. Se há situação difícil para quem faz a gestão de uma orçamento apertado são os gastos não previstos.

O carro, gasóleo, 1.4 de cilindrada, quase 10 anos, mais de 100 mil quilómetros e muito pouco estimado, é avaliado em 3.600 euros. Peço que me digam o carro – novo – mais barato que têm. Exigências: 5 portas, rádio e ar condicionado. Coisas de quem tem filhos.

Um Peugeot 107, 1.0 gasolina, 5 portas, 9.600 euros. Estou sentada – tenho que perder este hábito de levar o meu filho mais velho à escola quase-de-pijama – e sinto-me sem qualquer capacidade negocial. Neste momento terei que descobrir 6.000 euros.

Considerando que estou a “poupar” os 2.000 euros que não vou gastar no arranjo… 4.000 euros. Faço mais contas: um carro novo retira-me o peso e os custos da inspecção durante quatro anos, depois disso será de dois em dois anos (um custo de cerca de 210 euros face a 54 euros, 8 contra apenas duas inspeções durante os próximos oito anos).

Poderá não ser relevante mas é preciso lembrar que o meu falecido carro terá que rever luzes e sinalização luminosa, pneus, espelhos retrovisores e limpa pára-brisas, por exemplo, todos os anos, o que acrescentaria bastante aos 210 euros que gastaria em inspecções nos próximos oito anos. E pedir a uma qualquer entidade divina que o preço da inspecção não suba.

Considero também que tempo é dinheiro: penso nas horas em que me terei que deslocar ou no que pagarei para que façam isso tudo por mim (serviço disponível em quase todas as oficinas que antes de levarem o carro à inspeção confirmam se está tudo em conformidade com o exigido). Psicologicamente estamos nos 3.000 euros.

Junto-lhe o facto do carro ter garantia durante dois anos, o que me livra de surpresas orçamentais durante 24 meses. Para mim este facto poderia ser valorizado em muito mais de 3.000 euros (valor de arranjos a que o meu falecido me obrigou nos últimos 12 meses).

Negoceio um seguro contra todos os riscos que custa o dobro do meu actual seguro contra terceiros (310 euros, contra 170 euros). Preservo o valor do meu carro pelo menos durante um ano. E sendo um carro novo e de menor cilindrada vou gastar menos em combustível apesar de estar um carro a gasóleo por um carro a gasolina.

Pronto. Respiro de alívio, apesar de me manter quase-de-pijama. Já estou a ganhar.Olhe, já que vou ter um carro pequeno, que seja amarelo! E assim foi.

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