Cuidados continuados

A crise pandémica pôs os serviços públicos à prova. O que falhou, convenhamos, falhou mais devido à inaptidão dos responsáveis políticos, a falhas de gestão e organização, do que a razões endógenas. Confundindo causa e efeito, tanto bastou para que os mesmos de sempre viessem, ainda assim, clamar pela necessidade de reforçar a máquina estatal. O PRR constituiu-se na condição que permite acalentar tal devaneio.

A Saúde será, por certo, o setor em que tal reclamação recolhe mais apoio popular e, porventura, a exceção que confirma a regra. A visibilidade dada pelo número de mortos, a pressão nos médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar, as filas de ambulâncias são imagens que perduram e sensibilizam, constituindo campo fértil para os interesses corporativos, cujo vocabulário se limita à palavra "mais", como se não houvesse amanhã. Não é assim: os efeitos dessas decisões perdurarão no tempo.

Há opções político-ideológicas distintas e legítimas. Em todo o caso, o bom senso diz-nos que não devemos ignorar a realidade. Esta semana, por exemplo, o Tribunal de Contas, insuspeito de especial simpatia pelas parcerias público-privadas, numa análise prudente para a área da saúde revela que as mesmas se traduziram numa poupança, para o erário público, de cerca de 200 milhões de euros. Haverá quem não goste delas ou, muito menos, que se fale em sistema nacional de saúde. Um gosto caro que será pago pelos contribuintes ou pelo sacrifício de outras decisões.

Também António Ferreira, ex-administrador do S. João, num artigo no Observador, demonstrou que muita da pressão sofrida nos hospitais se devia mais à incapacidade dos responsáveis pelo SNS o reorganizarem para dar resposta à crise, do que a falta de capacidade disponível, mesmo admitindo a subdotação de pessoal especializado. Faltou pragmatismo, sobrou ideologia.

O rescaldo de uma crise pandémica é mau momento para dar aso à ideologia. A abundância de recursos é tão circunstancial como a pandemia. Quando se juntam os dois podem dançar o tango. O país, esse, não sairá dos cuidados continuados.

Alberto Castro, economista e professor universitário

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de