Da desconstrução do ódio

Lisboa é, desde os tempos mais remotos, ponto de encontro e de confluência de culturas que ao longo de séculos permitiram edificar uma urbe com marcas na sua organização espacial, na sua arquitetura e na cultura, pilares da cidade e da área metropolitana que hoje conhecemos: inclusiva, diversa e multicultural.

A cidade e as suas gentes transportam essas características que é quase uma espécie de responsabilidade, na modernidade das ideias e no garante do respeito pelos valores essenciais da cidadania das sociedades progressistas.

Este trabalho de agregação, em torno da interculturalidade e da diversidade, enquanto motor de desenvolvimento, é contínuo. E deverá ser suportado pela promoção de políticas públicas inclusivas, que rejeitem visões negativas, cujo objetivo último é o de colocar cidadãos contra cidadãos.

Inclusão, e a sua relação direta com o desenvolvimento das comunidades, é um tema bem presente na minha atividade enquanto gestor público de uma empresa pública cuja atividade tem impacto na vida de 64 000 lisboetas, de origens diversas, com culturas diferentes e que ao longo do tempo sofreram de estigmatização.

Torna-se imperativo desconstruir esta estigmatização, assim como as fronteiras espaciais invisíveis, rejeitando novas e perigosas ameaças. Discursos xenófobos e segregadores, que colocam em risco as relações de equilíbrio social das comunidades - que no seu todo formam a cidade - e as simbioses geradas, fruto de um trabalho de décadas, pela inclusão.

É, assim, com enorme preocupação que assisto, na área metropolitana de Lisboa e um pouco por todo o país, à legitimação de candidaturas ao poder local, cuja assinatura assenta na desagregação, intolerância e discriminação, mobilizando, pela negativa, os cidadãos.

O poder local, o mais próximo dos cidadãos, merece muito mais, sendo digno, logo à partida, de maior responsabilidade e de respeito na escolha destes protagonistas. Quem os acolhe e valida é tão conivente com esta mensagem fraturante quanto as suas escolhas.

A propagação de narrativas que atentam contra os princípios da não discriminação e da tolerância são reveladores da inexistência de condições para a assunção da responsabilidade que um cargo público acarreta. Quem escolhe este caminho envergonha a República e atenta contra os princípios e valores da Constituição da República.

A normalização deste extremismo separatista desmerece as comunidades e os seus habitantes e representa um enorme retrocesso civilizacional. Não será seguramente assim que agregaremos, não será assim que incluiremos e construiremos uma sociedade mais inclusiva.

É preciso energia positiva para desconstruir, é preciso que as pessoas não se deixem vencer por populismos e encarem as suas diferenças como motor de desenvolvimento da sociedade. É, pois, tempo de rejeitar e derrotar coletivamente estes protagonistas do discurso de ódio.

Presidente do Conselho de Administração da Gebalis//Escreve à quinta-feira

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