Darth Zuckerberg e o império Facebook

No intervalo dos Globos de Ouro, que foram transmitidos este fim-de-semana na NBC, os espectadores assistiram a um anúncio que a Apple tem promovido nos últimos meses. Nele, pessoas em situações corriqueiras partilham informação pessoal em voz alta e com estranhos - como a mulher que dá aos transeuntes o seu número de cartão de crédito através de um megafone. A mensagem da Apple é esta: os dados pessoais não devem ser partilhados e o iPhone é o telemóvel que permite manter essas informações privadas.

O anúncio faz parte de uma campanha da marca para posicionar os seus produtos como unicamente capacitados para proteger a privacidade dos utilizadores, contrastando com outras marcas e sistemas operativos. Essa guerra vai desembocar numa actualização do sistema iOS que obrigará as aplicações a pedirem autorização aos utilizadores para monitorizarem o seu comportamento, dentro e fora delas. Um dos principais afectados pela mudança? O império Facebook.

A empresa de Mark Zuckerberg está muito preocupada com o update, porque muito do seu modelo de negócio depende da recolha de dados dos utilizadores e da refinação dos seus perfis para melhor personalizar anúncios. Ao contrário da Apple, o Facebook depende da publicidade; e a eficácia dela depende da riqueza de dados que recolhe quando os utilizadores usam as suas aplicações - e quando estão fora delas.

Além da troca de galhardetes entre Mark Zuckerberg e Tim Cook, CEO da Apple, o Facebook está agora também a recorrer a anúncios para convencer os utilizadores de que os anúncios personalizados são bons e os utilizadores devem ajudá-los nessa tarefa.

"Cada feed de notícias é único, o que significa que é mais provável que você veja conteúdos que quer ver, grupos a que se quer juntar, criadores que quer seguir e produtos e serviços que quer comprar", escreveu a empresa no seu blogue. "Esta descoberta é impulsionada pela personalização, que é o molho não tão secreto que ajuda as pessoas a descobrirem produtos e serviços que correspondem às suas necessidades."

Ponham o violino a tocar para a segunda parte: "É também o mecanismo que as pequenas empresas usam para alcançar os seus clientes mais prováveis, a um preço acessível. Acreditamos que isto é bom para as pequenas empresas e para as pessoas que gostam dos seus produtos. E queremos que mais pessoas saibam porquê."

Ausente desta explicação é a menção do que está realmente em causa - o rastreio e monitorização dos utilizadores que permite a tal personalização.

Para o Facebook, a mera necessidade de pedir autorização é um problema. A empresa quer poder monitorizar os utilizadores sem que estes tenham consciência de que estão a ser seguidos a todo o momento. Porque essa consciência é desconfortável, naturalmente, e muitos optarão por bloquear o rastreio se a aplicação os questionar sobre ele.

Talvez esta estratégia tenha funcionado há uma década, quando as pessoas estavam dispostas a partilhar mais sobre si e não se importavam de trocar dados por serviços gratuitos. Mas depois dos escândalos sucessivos dos últimos anos, a latitude do Facebook para continuar a fazer isto estreitou bastante.

Isso ficou espelhado na reacção aos termos de serviço do WhatsApp e ao cruzamento de dados com as outras plataformas da companhia, e está também patente na fria recepção dos consumidores aos produtos de hardware do Facebook. O Portal vendeu muito pouco e o relógio inteligente que aí vem no próximo ano enfrentará a mesma desconfiança. Há uma noção muito mais clara de que as empresas do universo Facebook registam e recolhem todos os movimentos dos utilizadores, o que é péssimo para as perspectivas futuras numa era em que reguladores e fabricantes - como a Apple - decidiram pôr o pé no travão.

É curioso que outras empresas que também monitorizam os utilizadores, como Google e Amazon, não tenham a mesma reputação. Mas isso talvez seja uma questão de tempo.

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