Das contradições

Entre quem despreza o consumo e os muitos que querem ser Greta.

1. Os números confirmam os avisos que se têm sucedido nos últimos meses: o crescimento está a abrandar e a conjuntura internacional está a fazer contraírem-se as tão necessárias exportações portuguesas há três trimestres consecutivos. Com o investimento também a travar e a indústria em retração, tem sido o consumo interno a safar-nos de piores quebras no crescimento. Foi no consumo que este primeiro-ministro apostou para puxar pelo país já na última legislatura e é dele que cada vez mais depende para, num contexto de Alemanha em recessão, Espanha em crise, brexit no limbo e relação comercial com os EUA cada vez mais frágil, fazer avançar o país, mesmo que poucochinho.

Há porém um ministro que joga contra a equipa. Em vez de compras, pede que se adote uma economia de verdadeira partilha em que pouco se detém e quase tudo se aluga, se reparte ou se usa e larga. Que receita (incluindo fiscal) terá esse país para redistribuir, para financiar o Estado social e os serviços é que não explica...

2. Já não há quem sonhe ser futebolista, cantor famoso ou sequer youtuber. Os jovens - e um bom número de adultos - querem ser Greta. Querem revoltar-se contra os lóbis e as gigantes tecnológicas da mesma forma que se indignam quando os pais lhes cortam o acesso à internet. Desejam ser heróis pelo mundo a gritar contra quem o estragou, ainda que seja preciso repetir-lhes diariamente que apaguem a luz quando saem do quarto e fechem a água enquanto escovam os dentes. Ocupam as ruas em protesto contra o petróleo e o lítio e provam que o fizeram enchendo as redes sociais com os momentos imortalizados pela câmara do smartphone.

Infelizmente para o mundo, os jovens não estão tão empenhados em descobrir como podem ajudar a construir a mudança quanto em mostrar que estão contra tudo quanto foi feito antes. Sobretudo tudo o que possibilita o seu modo de vida.

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