Opinião

De Espanha nem…nem…mas bom investimento!

Foto: DR
Foto: DR

Dizia-se, quando eu era criança, in illo tempore, que de Espanha nem bom vento nem bom casamento! Hoje poderíamos acrescentar …mas bom investimento. Na verdade, muitas têm sido as empresas com origem em Espanha que têm investido no mercado português em diferentes áreas de atividade, desde a banca, o Imobiliário até à Distribuição, cujos expoentes máximos neste sector foram a Zara e o El Corte Inglés e mais recentemente será a Mercadona. Os dois primeiros já todos conhecemos mas poucos ainda sabem quem é a Mercadona. Vejamos então:

Conheci o Juan Roig em meados dos anos oitenta quando ele era vice presidente da AECOC (a associação espanhola dos códigos de barras cuja congénere em Portugal é a Codipor/GS1) e a Mercadona era uma pequena cadeia regional de Valência com uma dúzia de pequenos supermercados. Dessa curta convivência de dois dias, retive desde logo uma ideia que o passar do tempo só confirmou: O Juan Roig era um visionário da distribuição. Num desses dias, levou-me à sede da empresa, sita à época, num modesto primeiro andar no centro de Valência, e logo à entrada, numa pequena sala de espera, estava um quadro de parede no qual se podia ler a seguinte mensagem: “Senhor fornecedor, se os seus produtos não contiverem código de barras nem vale a pena esperar!” Os visionários são assim, ambiciosos, destemidos e sempre à frente do seu tempo.

A Mercadona é, na verdade, uma empresa notável e digna da nossa admiração. É gerida por um verdadeiro visionário que, em menos de 40 anos, chegou à liderança do mercado espanhol, que por ano, fatura mais que toda a distribuição portuguesa junta e que, nas palavras do seu líder, “está comprometida com uma grande mudança disruptiva, a agilidade e a simplicidade”.

A Mercadona cortou nas despesas em publicidade, baniu as promoções e comprometeu-se em praticar sempre preços baixos. O modelo exigia por isso estabilidade não só no preço, mas também nas relações com os fornecedores e empregados pelo que foi criado o chamado Modelo de Qualidade Total.

Através do seu modelo de Qualidade Total e de Inovação Transversal, assente nos seus cinco pilares – o consumidor, o colaborador, o fornecedor, a sociedade e o capital -, a Mercadona prossegue o seu caminho, fortemente empenhada num processo de transformação e consolidação das mudanças, em que a todos os níveis, a empresa se encontra comprometida.

A Mercadona é uma empresa que pensa a longo prazo de forma responsável e sustentável através de elevados investimentos, mais de mil milhões de euros em 2017, gerando 4 euros na economia espanhola por cada euro de rendimento gerado por estes investimentos.

Em Portugal, na sua primeira experiência de internacionalização, a Mercadona investirá 100 milhões de euros, estima fazer 63 milhões de compras a fornecedores portugueses e contratar, para além dos 120 quadros já em funções, mais 350 novos colaboradores.

Portugal faz fronteira com Espanha, ambos possuem culturas mediterrânicas marcadas mas apesar das semelhanças, são dois mercados muito diferentes em termos de comportamentos de compra, estratégias comerciais e facetas culturais. Mas foi essa… a opção da Mercadona.

E porquê Portugal? Proximidade geográfica e cultural para a Espanha; A semelhança e a fácil compreensão do castelhano pelos portugueses; Baixos custos laborais em comparação com outros países da Europa; Estabilidade política e baixos níveis de criminalidade; Moeda única comum; Desenvolvimento de infraestruturas; Excelente disponibilidade de serviços tecnológicos; Boa qualidade de vida e de clima e Políticas governamentais atrativas de investimentos estrangeiros (através da implementação de incentivos fiscais, melhorias de infraestruturas, criação de uma agência de investimento e comércio exterior (AICEP), criação de um regime especial de auxílios a projetos de investimento elevado).

Assim, em junho de 2016, a Mercadona decidiu lançar o seu plano de internacionalização para Portugal através de implantações autónomas. Desde essa data, foi criada a empresa Irmãdona Supermercados S.A., estabelecendo a sua sede no Porto e, ao longo de 2017 e 2018, a empresa tem feito esforços significativos para atingir o seu objetivo de abrir em 2019 as primeiras 4 lojas (das 10 já previstas) e um centro logístico, na Póvoa de Varzim.

Com a entrada da Mercadona no mercado português duas grandes interrogações se levantavam! A Mercadona irá imitar os seus concorrentes portugueses aderindo à prática de promoções agressivas? E quanto aos domingos irá a Mercadona também manter abertas as suas lojas contrariamente ao que faz em Espanha em que todas as suas lojas fecham nesse dia?

A Mercadona já respondeu a estas duas questões. Não, não irá acompanhar os seus concorrentes portugueses e manterá a sua filosofia de Sempre Baixos Preços (SBP); e sim, irá abrir as suas lojas aos domingos a exemplo da prática dos grandes retalhistas portugueses.

E, como sempre, em ambas as decisões, presidiu o interesse dos consumidores, isto é, dos “chefes”, como na Mercadona se designam os seus fiéis clientes.

José António Rousseau, Consultor e docente no IADE/IPAM/EUROPEIA, Investigador da UNIDCOM/IADE

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Teste - Redação DV

Liberdade e sustentabilidade dos media, com ou sem apoio do governo?

Regime dos residentes não habituais garante isenção de IRS a quem recebe pensões do estrangeiro.
(Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Primeiros 18 residentes não habituais prestes a perder benefício

Miguel Albuquerque, do PSD Madeira.

Projeção. PSD perde maioria absoluta na Madeira

Outros conteúdos GMG
De Espanha nem…nem…mas bom investimento!