Opinião

De Hogwarts para o café do bairro

Hogwarts_-_Wizarding World of Harry Potter

Wizards Unite segue a mesma estrutura do Pokémon Go. E isso mostra como o conceito funciona bem

Há quase mil bandas classificadas no sub-género “Wizard Rock”, que identifica música inspirada pelos livros e filmes da saga Harry Potter. A banda a quem é atribuída a génese desta categoria, Harry and the Potters, regressou no final da semana passada com um novo álbum de estúdio, Lumos, depois de onze anos sem editar música nova.

Na verdade, eles nunca pararam de dar concertos e existir como banda, mas só agora embarcaram na aventura de escrever canções inspiradas no último livro da série, “Harry Potter e os Talismãs da Morte.” Estão agora numa tour norte-americana que passa sobretudo por bibliotecas, transformadas para fazer estrilhar os acordes indie rock de um álbum onde Joe e Paul DeGeorge cantam sobre feiticeiros, dragões e o activismo imperfeito de Hermione Granger.

Harry and the Potters

Harry and the Potters

O lançamento do álbum coincidiu com a chegada do novo jogo de realidade aumentada Harry Potter: Wizards Unite, criado pela Niantic em parceria com a Warner Bros. É uma confluência notável de novidades que recuperam a magia deste fenómeno da literatura popular escrito por J.K. Rowling e inspirado, em parte, por um período em que viveu em Portugal. Apesar de o último livro ter sido publicado há doze anos, o universo Harry Potter continua a expandir-se – o próximo filme “Fantastic Beasts and Where to Find Them” vai sair em Novembro de 2021. E este novo jogo da Niantic, apropriadamente apelidado de “novo Pokémon Go”, tem todo o potencial para se transformar num blockbuster mundial.

A estrutura do jogo é tão similar à do Pokémon Go que no início causa alguma suspeita. Terão simplesmente agarrado no esqueleto e espetado com feiticeiros em cima dele? Mais ou menos. Há uma narrativa mais complexa neste jogo, que faz lembrar as histórias do Professor Layton, com o mesmo sotaque inglês. Mas as similitudes com o Pokémon Go não fazem muita mossa, porque o conceito é verdadeiramente envolvente. Não é preciso ser super fã de Harry Potter para encontrar em Wizards Unite um mundo interessante, onde há poções e feitiços, batalhas campais e cartões de identificação do Ministério da Magia.

À entrada do evento AT&T Shape, que decorreu este fim-de-semana nos estúdios da Warner, em Burbank, estava uma réplica em tamanho real de uma localização que vai aparecer virtualmente no jogo. Os criadores da WB Studios e Niantic falaram num painel de lançamento onde contaram como o jogo foi criado e pormenores engraçados do seu desenvolvimento, tais como a prioridade nas contratações de pessoas que tinham escrito “Fã de Harry Potter” nos seus currículos.

 

O que me chamou mais a atenção, no entanto, foi a vertente de marketing. A Warner Bros é detida pela Time Warner, que por sua vez é detida pela AT&T, e a operadora decidiu meter o pé no universo mágico de uma forma inteligente. Vejamos assim, ninguém sonha com uma ida à loja de uma operadora de telecomunicações ou a oportunidade de atender as suas chamadas comerciais. A não ser que essa loja se transforme numa pousada para feiticeiros num certo jogo de realidade aumentada; aí, tal como os fãs de Pokémon Go andavam sempre a rondar as PokéStops, há uma boa possibilidade de que a localização de retalho ganhe algum apelo.

No Shape, o diretor de marketing da Niantic Archit Bhargava revelou que as lojas da AT&T serão transformadas em pousadas e fortalezas, com a possibilidade de ir buscar recompensas e outras regalias.

É um aproveitamento inteligente desta característica específica dos jogos de RA da Niantic, que obrigam os jogadores a mexerem-se e fazem uso de pontos de referência do mundo real na narrativa do jogo. Quem jogou ou continua a jogar Pokémon Go sabe bem como as aventuras externas à caça de monstros têm a capacidade de abrir os olhos para o que está à nossa volta, no bairro de sempre, do outro lado da cidade, em torno do parque, no café do costume. Muitas vezes cedi à tentação de ir buscar café com sabor a avelã ao 7Eleven onde havia uma PokéStop mesmo ao lado de casa; também dei por mim em ruas paralelas ao meu quarteirão por onde nunca tinha passado, porque estava a experimentar rotas novas.

Com Harry Potter: Wizards Unite, a AT&T percebeu o enorme potencial de marketing não invasivo associado, de uma forma que há um par de anos não era possível – foi apenas no ano passado que completou a compra da Time Warner por 74,6 mil milhões de euros e adquiriu todas estas guloseimas do imaginário cinematográfico. A magia de Harry Potter continua a ser mais interessante que qualquer influenciador dos tempos modernos.

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