De peru a frango de aviário

Para tudo e preparem o peru. É hora de dar graças. Não para nós, nem para a maior parte do mundo, mas para os americanos que, chegada a 4ª quinta-feira de novembro, festejam anualmente um dos eventos mais emblemáticos da sua fundação, o Thanksgiving. Tudo começou em 1621, quando os colonos ingleses de Plymouth (Massachusetts) resolveram dedicar três dias de oração e jejum para agradecer a Deus um outono repleto de boas colheitas. Conta-se, entretanto, que a tribo nativa dos Wampanoag também se juntou à festa, contribuindo com iguarias locais - peixe, enguia, marisco e cerveja. Num ambiente de concórdia, todos desfrutaram daquele momento, colonos e nativos, ratificando um acordo de paz que só viria a ser quebrado na Guerra do Rei Filipe (1675-76).

Independentemente do quão romantizado terá sido, em benefício da narrativa patriótica estadunidense, a verdade é que este evento simboliza um projeto e um modelo. Os colonos haviam chegado no Mayflower cerca de um ano antes; muitos fugindo à perseguição religiosa e política que sofriam no velho continente, outros escapando à prisão ou de um passado duvidoso. Em comum, todos partilhavam o desejo de uma vida nova, recheada de oportunidades. Assim, puseram mãos à obra, pois se nada estava construído teriam de ser eles mesmos a edificar a terra dos homens livres e a morada dos audazes (tradução livre da expressão que iria integrar o hino: "land of the free and home of the brave").

As colheitas de outono representam, neste contexto, a realização das expectativas de prosperidade, resultante da confluência entre a oportunidade, a liberdade e o trabalho. Trata-se, portanto, da noção inversa à tirania, segundo a qual, as oportunidades têm de ser garantidas por terceiros e o trabalho liberta. Deste modo, em contraste com o colonialismo estatista que a Europa promovia, os peregrinos viam-se com direitos naturais garantidos por Deus e não por qualquer rei ou autoridade civil. Com o passar dos anos, multiplicaram-se as comunidades de homens livres, oriundos dos diversos países europeus (Inglaterra, Holanda, Suécia, Alemanha, Irlanda, entre outros) para construir o novo mundo em torno de liberdades e garantias que nenhum tirano, pessoa ou sistema, lhes pudesse tirar.

Quanto à tribo dos Wampanoag, esta representa a universalidade da experiência americana. Isto é, a assunção de que qualquer ser humano ama naturalmente a prosperidade que frutifica a partir dos mencionados valores. Todos podem fazer parte desta experiência, pois, como mais tarde dirá a Declaração da Independência (1776): ""Consideramos que estas verdades são autoevidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais constam a Vida, a Liberdade e a Busca da Felicidade. E que para assegurar estes direitos, os Governos são instituídos entre os Homens, derivando os seus justos poderes do consentimento dos governados".

Ora, eu não sou americano nem ninguém me paga para fazer publicidade à cultura ianque. Mas, tampouco escondo a boa impressão que me causa alguns dos seus elementos fundacionais, presentes não somente na celebração do Thanksgiving como também na Declaração da Independência e na Constituição. E a razão é muito simples: a receita funcionou!

Já antes da independência, entre 1620 e 1776, a América era uma terra de oportunidades absolutamente únicas. Basta ler a genial comédia de costumes, Moll Flanders (1722), de Daniel Defoe, para o constatar. Quantos ladrões afaimados não escaparam da pena de morte, em Inglaterra, oferecendo-se como escravos no novo mundo? Pois, ainda que tivessem de servir durante uns aninhos, mal conquistassem a liberdade não lhes faltariam chances de enriquecer. Quanto ao período pós-independência, então, penso que ninguém pode contestar o êxito incomparável que têm sido os EUA face ao resto do mundo. Com efeito, em menos de dois séculos tornaram-se a maior potência mundial da história.

No entanto, é aqui que a porca torce o rabo. Hoje em dia, grande parte dos americanos vota em políticos que pretendem, justamente, mudar de receita. O que pretendem eles ser? A Europa? A China? Para compreendermos melhor o que está em causa temos de focar-nos em dois conceitos muito em voga e que resumem o que se espera da economia mundial nos próximos anos.

O primeiro é o conceito de Reset. Poucos meses após a pandemia se espalhar pelo ocidente, o Presidente do Fórum Económico Mundial, Klaus Schwab, editou um livro chamado Covid-19: The Great Reset. Na sua perspetiva, aparentemente partilhada pela maior parte dos líderes atuais, o capitalismo tal como o conhecemos está obsoleto, pois não consegue dar resposta aos problemas e desafios do século XXI. Nomeadamente, às alterações climáticas, às desigualdades e aos conflitos identitários, sendo esta a razão pela qual a sociedade está a entrar em ebulição. Deste modo, será necessário acabar de vez com o antigo capitalismo e inaugurar o pós-capitalismo.

Neste novo modelo, as empresas não serão apenas dos seus donos (shareholders) mas terão de ser geridas de acordo com todas as partes interessadas (stakeholders) no seu negócio. Ou seja, não só os seus colaboradores, fornecedores e clientes, mas todos os indivíduos e entidades com que estabelece algum tipo de relação, seja ela direta ou indireta. O que, na prática, inclui todos os cidadãos, organizações privadas, instituições públicas, governos e comunidade em geral.

Neste contexto, Schwab vê na crise pandémica uma fantástica oportunidade para reiniciar a sociedade e construí-la de novo. É aqui que nos deparamos com segundo conceito em questão: Build Back Better. Trata-se de um lema apregoado por diversos líderes atuais, incluindo figuras tão divergentes quanto Boris Johnson e Justin Trudeau. Todos parecem convencidos de que a melhor solução para o mundo é reinventar uma nova sociedade global delineada por stakeholders. Terão razão? O tempo dirá.

Para já, o problema está no que se entende concretamente por stakeholders, pois, como nos advertia George Orwell, quando todos são iguais há sempre uns mais iguais que os outros. Traduzindo por miúdos, na prática, o que irá acontecer é muito simples: Mais regulamentação e mais impostos, com a diferença que a sua implementação, desta vez, será a nível global. A intervenção estatal, com base em diretrizes das grandes instituições mundiais, aumentará substancialmente e a economia tenderá a ser ainda mais planeada do que já é. As empresas não poderão mexer uma palha sem consultar mil e uma diretrizes tecnocráticas e burocráticas no âmbito do combate às desigualdades, à discriminação, às alterações climáticas, bem como às modas do politicamente correto. A propriedade privada tenderá a desaparecer, nem que seja porque o poder de decisão do proprietário terá de sujeitar-se aos ideais da economia partilhada. Enfim... para quem ainda crê na livre concorrência, na redução fiscal e regulatória, diria que nos aguarda um pesadelo.

Contudo, nada disto deveria surpreender-nos demasiado. Desde a era do colonialismo que o velho mundo tem depositado nos governos e decisores públicos a esperança de que estes nos resolvam todos os males. Neste sentido, nada disto é novo, apenas ganhou um alcance global. Trata-se, portanto, da velha mentalidade estatista aplicada ao fenómeno da globalização.

O que, de facto, deveria espantar-nos é a facilidade com que grande parte dos americanos parece querer alinhar neste projeto e adotar o respetivo modelo. De facto, mal Biden se viu eleito, logo se apressou a decretar o seu Build Back Better Plan, visando a implementação de medidas à luz do grande Reset.

O que se passa com a terra dos homens livres? O que é feito da sua audácia? Só um cego não vê que os ideais do reinício entram em clara contradição com os valores da Declaração de Independência e da Constituição dos Estados Unidos da América. Além de renegarem toda a história do novo mundo, até às mencionadas raízes fundacionais que se celebram no Thanksgiving.

Dizem as más-línguas que este ano já há escassez de peru. Mas, por enquanto, ainda se encontra, apesar do preço ter aumentado consideravelmente. Se continuarem a aderir aos delírios económicos do resto do mundo, porém, lá para 2030 talvez nem um franguinho de aviário arranjem para festejar a efeméride.

Economista e investidor

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