Edson Athayde

De Platão a António Variações

As pessoas costumam confundir mas não se engane: “desejo” tem pouco a ver com “necessidade”.

Não são palavras opostas mas também recuso a ideia de que se complementam. O exemplo mais simplista explica mas ilude: temos necessidade de água mas desejo de Coca-Cola.

A base de toda a indústria publicitária (e de 99% do capitalismo) é desejo de desejo que a humanidade sente (se me permitem essa mistura de hipérbole com redundância).

Desejamos desejar. Admitir isto não faz mal nenhum. Talvez até faça parte da cura.

“Cura”. Penso nesta palavra ao zapear a TV no quarto do hotel onde estou, em Chicago. Lá fora neva e venta (não necessariamente por esta ordem). É domingo, um dia santo para os americanos, dias dos jogos da National Football League (a NFL roubou o dia da igreja Católica).

Nos intervalos publicitários uns 40% dos anúncios são sobre remédios ou tratamentos de saúde. Pacotes de viagens, hotéis e buscadores de hotéis correspondem a mais uns 25%. Todas as mensagens prometem mais ou menos o mesmo: cura (sob a forma de solução para algo do corpo ou fuga para algo da alma).

O exemplo mais simplista explica mas ilude: temos necessidade de água mas desejo de Coca-Cola.

Com a palavra, António Variações: “Quando a cabeça não tem juízo/E tu não sabes mais do que é preciso/O corpo é que paga/Quando a cabeça rola pro abismo/Tu não controlas esse nervosismo/A unha é que paga/A unha é que paga/Não paras de roer/Nem que esteja a doer”.

Não é difícil concluir o que desejam os americanos. Desejam outra coisa qualquer diferente da que têm. Como muitos têm muito, como a maioria tem mais do que a média a que estamos habituados, eles querem até o que é humanamente impossível. Daí quererem coisas tão grandes, tamanho XL, combo de delícias, carboidratos na veia. Daí quererem a Lua (e terem-na conseguido, temos que admitir).

Platão teorizou sobre o desejo, indiciando que um ser sem desejos seria um Deus, ou seja, um ser perfeito. Já Epicuro propunha que é no prazer que reside a felicidade e os desejos naturais uma parte intrínseca do homem.

Não é difícil concluir o que desejam os americanos. Desejam outra coisa qualquer diferente da que têm.

Não sei bem o que desejo, tenho dúvidas das minhas necessidades. Sempre que venho aos EUA, meca da atividade ao qual me dedico, o berço da publicidade moderna, em vez de sentir-me em casa, lembro-me de outra canção do Variações: “Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar/Porque até aqui eu só/Estou bem/Aonde não estou/Porque eu só quero ir/Aonde eu não vou”.

Ou como diria o meu Tio Olavo: “Cuidado com aquilo que desejas. Um dia, podes conseguir”.

Leia todas as crónicas de Edson Athayde aqui.

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