Opinião: João Almeida Moreira

De Sochi a Hiroshima

Soccer Football - World Cup - Sochi, Russia - June 12, 2018   General view of a World Cup sign in Sochi   REUTERS/Hannah McKay
Soccer Football - World Cup - Sochi, Russia - June 12, 2018 General view of a World Cup sign in Sochi REUTERS/Hannah McKay

O Brasil já está em Sochi, o quartel general da maior embaixadora do país, a seleção nacional de futebol, durante o Mundial da Rússia. Depois, jogará em Rostov-on-Don, São Petersburgo e Moscovo, na primeira fase. Se tudo correr como espera a sua ansiosa torcida chegará aos oitavos-de-final, em Samara, aos quartos-de-final, em Kazan, e depois regressará a São Petersburgo e a Moscovo para as meias-finais e final.

À exceção das duas grandes metrópoles russas, as restantes são cidades desconhecidas da maioria dos brasileiros mas que podem entrar no imaginário coletivo em caso de triunfo – podem, porque não, entrar na história do Brasil, dada a importância do futebol no mundo em geral e no país sul-americano em particular.

Futebol à parte, o Brasil, quinto país do globo em área e população, com um solo tão fértil que produz o dobro das colheitas anuais, por exemplo, do também gigante Estados Unidos, é, no entanto, uma sombra – no modelo económico, no estilo de vida, etc. – do seu primo do norte. Por isso tenta desesperadamente imulá-lo – no modelo económico, no estilo de vida, etc. – inclusivamente naquilo que não se adequa ao Brasil ou naquilo em que os Estados Unidos não são um padrão de progresso.

Um exemplo, entre muitos outros: o consumismo exacerbado dos americanos é copiado religiosamente pelos brasileiros mesmo que estes tenham um rendimento per capita cinco vezes inferior; estimulado pelas administrações de Lula da Silva para alavancar a economia e diminuir a desigualdade, ajudou à crise atual da endividada população que, mesmo assim, insiste em consumir, à americana, como se não houvesse amanhã.

Outro exemplo, mais sintomático: a paixão pelas armas, fruto da cultura de faroeste americana, ganha cada vez mais adeptos na cultura sertaneja brasileira, ao ponto do líder das sondagens, se excetuarmos o detido Lula, ser o capitão na reserva Jair Bolsonaro, que quer armar toda a gente. Mais: a Bancada da Bala no Congresso Nacional, composta por ex-militares e ex-polícias, deve ser reforçada substancialmente em Outubro dado o número recorde de membros das forças armadas a votos num país cujo povo é definido por sociólogos como “cordial”, uma versão tropical dos “brandos costumes” portugueses.

A obsessão armamentista e musculada não se adequa, por natureza ,ao Brasil que, ao contrário dos Estados Unidos, nunca usou o hard power – tentativa de convencimento por coerção e pagamento – como política externa. Pelo contrário, de tão soft power, os Negócios Estrangeiros brasileiros até se encolheram há uns anos, da mesma maneira com que um elefante se encolhe perante um rato, quando Evo Morales, presidente da pequenina Bolívia, lhes mostrou os dentes após incidente com um diplomata.

Por alguma razão, afinal, são Sochi ou Samara hoje, como ontem foram Solna, na Suécia, Viña del Mar, no Chile, Guadalajara, no México, Pasadena, na Califórnia, ou Ulsan, na Coreia do Sul, as cidades que ficaram no imaginário coletivo e na história do Brasil, enquanto palco das suas vitórias mundiais no futebol.

Já os americanos, que chamam os seus campeonatos nacionais de “world series”, como se o mundo começasse e acabasse ali, lembram-se melhor de lugares como Hanói, Kandahar, Baía dos Porcos, Bagdad, Hiroshima ou Nagasaki, palcos dos seus sangrentos duelos nos campos de batalha.

Uns e outros aprendem geografia como podem.

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