Defender a formação superior, premiar o trabalho qualificado

"Ainda vale a pena estudar e completar um curso superior?!" A pergunta, mais ou menos retórica, terá ecoado na cabeça de muita gente, desde a semana passada, após terem sido conhecidos os resultados do  relatório "Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal", da Fundação José Neves, que concluiu que o salário dos portugueses com ensino superior concluído caiu 11% na última década.

O quadro geral traçado pelo relatório é mais complexo: os salários praticados em Portugal são baixos face à média da União Europeia (UE) e, na última década, o rendimento real só aumentou para os menos qualificados (em 5%, devido à subida do salário mínimo). Aliás, em 2020, o rendimento médio dos trabalhadores portugueses com educação superior era menor do que o dos trabalhadores com ensino secundário em 12 países da UE e do que o dos trabalhadores menos escolarizados na Dinamarca, Finlândia, Luxemburgo e Países Baixos.

Significará isso que, em Portugal, estudar já não compensa? Bem pelo contrário. E, estando a percentagem de portugueses com formação superior completa ainda bem longe da média europeia, é essencial que paremos de alimentar essa ideia perigosa. A educação e o reforço das competências do nosso tecido produtivo são as respostas para a promoção de uma economia nacional capaz de passar a remunerar devidamente os mais qualificados.

O relatório supracitado indica-o claramente. O aumento dos salários depende da produtividade, assim como a produtividade das empresas depende das qualificações dos seus trabalhadores e gestores. No entanto, apenas 16% das empresas investem no reforço das competências dos seus quadros e a aposta em aprendizagem ao longo da vida continua a ser residual.

É aí que temos de atuar. Importa aumentar o número de adultos que fazem formação ao longo da vida (reforçando ou adquirindo competências), tanto quanto importa ampliar o número de jovens com ensino superior concluído e emprego e salário adequados às suas qualificações.

Espero que os novos projetos apoiados no âmbito dos programas "Impulso Jovens STEAM" e "Incentivo Adultos" do Plano de Recuperação e Resiliência, de que já falei nestas páginas, nos ajudem nesse caminho. Estudar ainda compensa - além de oferecerem melhores situações profissionais e maiores rendimentos, níveis superiores de educação estão também associados a mais elevados indicadores de saúde mental e bem-estar. Mas pode - e deve - compensar muito mais.

Reitor da Universidade de Coimbra

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