Deixar o colo do Estado e trabalhar com ambição

Durante décadas e até aos nossos dias, os portugueses olham os bons resultados de lado. Quem consegue ser bem-sucedido nos negócios, claramente tomou atalhos e deve ser castigado, quem faz bons investimentos é decerto um especulador e tem de ser punido, quem tem um bom salário está com certeza a receber o retorno de favores prestados e devia ter vergonha. Há muito se entranhou por aqui a penalização do sucesso, com o fisco a desempenhar o papel de exímio carrasco, mas há além disso um impulso negativo generalizado na sociedade, que nos puxa para baixo. Um enviesamento ideológico que fez germinar a ideia de que a ambição é pouco recomendável e moralmente censurável.

Talvez por isso Portugal tenha perdido a grande oportunidade que se abriu no caminho pós-intervenção da troika, nunca indo além dos 2% de evolução, mesmo nos melhores anos. Talvez por isso os salários mais baixos sejam um quase exclusivo no que respeita a aumentos, engordando a fatia de população estacionada nessa fasquia mínima. Sem incentivos ao sucesso e multiplicando-se os obstáculos ao crescimento, as empresas não conseguem evoluir, tornar-se maiores, mais produtivas, mais interessantes para quem nelas trabalha. Nem pagar melhor para reter talento. O que apenas soma problemas às doenças que há muito afetam o país: excessiva dependência do Estado, desresponsabilização, fraca produtividade, custos de contexto elevadíssimos, excesso de impostos e complexidade legislativa e fiscal e uma chocante falta de pessoas que agudizou a crise de talento que atravessa a Europa.

A verdade é que se preferiu recuar nos passos dados rumo ao estabelecimento de chão firme para podermos crescer, em vez de capitalizar o esforço de quatro anos e lançar sementes para um desenvolvimento apoiado no tecido empresarial, que cria riqueza - como fez a Irlanda com os resultados conhecidos. Optou-se por voltar para o colo do Estado, que decide o que cada um merece receber e quem deve ser mais castigado.

Vivemos hoje um momento chave para inverter esta rota para o abismo. Mas arrepiar caminho implica a coragem de fazer reformas que são quase revoluções na forma como o país se organiza, nos estímulos que dá, nas opções estruturais que acarinha e nos resultados que ambiciona. E para isso é preciso parar de pensar em ciclos eleitorais e endereçar os problemas abraçando soluções viáveis a longo prazo, sem ficar preso às dores de crescimento inevitáveis. Essa parte é inevitavelmente missão das políticas públicas, desenhadas com visão mais ampla e por isso duradoura. Mas parte da transformação está nas mãos de cada um de nós. Na capacidade de exigir e andar para a frente, aspirando ao nosso melhor.

Sobe&Desce

SOBE: Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa
Tem sabido vencer contrariedades e más vontades e tem conseguido criar consensos que visam a melhoria da vida na Lisboa que governa. E se ainda há muito caminho a fazer - com problemas como a mobilidade e o saneamento a somar desafios à gestão da autarquia -, nesta semana concretizou mais um momento positivo da sua presidência, ao ser bem sucedido na aprovação pela oposição de um pacote de 22 medidas especificamente desenhadas para ajudar os lisboetas a enfrentar a atual crise. São passos de aplicação simples, com efeitos assinaláveis para as famílias mais afetadas pela inflação, como o congelamento das rendas nas habitações municipais, o acesso automático à tarifa social da água e o reforço do Fundo de Emergência Social de Lisboa para famílias, IPSS e empresas sem fins lucrativos, além de 12 milhões de euros para apoiar as empresas.

SOBE: Fernando Medina, ministro das Finanças
Foi conseguido à boleia da receita extraordinária que engordou os cofres do Estado por efeito da inflação, mas isso não lhe tira mérito - o superavit só foi conseguido porque Medina tem resistido com todas as forças aos mais demagógicos apelos, incluindo os do seio socialista, para desembolsar apoios como se gerisse um saco sem fundo. Cabe ao ministro das Finanças controlar as contas do Estado e este tem-no feito com rigor, ainda que o líder do governo, talvez por se lembrar de quanto criticou opções semelhantes ao executivo de Passos Coelho - esse sim, sem margem de manobra quer interna quer no contexto externo -, opte por uma total opacidade na comunicação das suas prioridades. Medina está a cumprir o seu papel. Seria desejável que houvesse mais transparência de Costa, em vez de tomar o povo por tolo, e verdadeira vontade reformista no governo para, mais do que manter as contas controladas, eliminar antigas ineficiências e problemas há muito diagnosticados como impeditivos do crescimento do país.

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