Opinião: Ricardo Reis

Depende da comparação

Mário Centeno, Ministro das Finanças. REUTERS/Pedro Nunes
Mário Centeno, Ministro das Finanças. REUTERS/Pedro Nunes

"Estas três avaliações estão todas factualmente corretas, até se usarmos o mesmo indicador: o PIB real per capita."

Há pouco tempo, numa entrevista ao Observador, Abel Mateus exprimia frustração por Portugal estar a crescer tão pouco mas isso ser celebrado. Numa entrevista ao Dinheiro Vivo, eu recusava dizer que Portugal está hoje em recuperação económica. O ministro Mário Centeno, na TSF, afirmava que Portugal virou a página em 2016 e cresce hoje mais do que a média europeia. Estas três avaliações estão todas factualmente corretas, até se usarmos o mesmo indicador: o PIB real per capita. O que muda entre elas é o ponto de comparação que se estabelece para a economia portuguesa.

Uma primeira perspetiva olha para a economia desde o início do século. Os portugueses produziram 7,8% mais riqueza em 2017 do que no ano 2000. Menos do que em qualquer outro período de 20 anos da história económica portuguesa. Menos do que a UE, que cresceu 20,8%, ou que a zona euro, que cresceu 14,8%. Em 36 países europeus, Portugal ocupa a 34ª posição. Como afirmava Mateus, dizer que é um sucesso crescermos 1% por ano nestas condições é de uma mediocridade extrema.

Uma segunda perspetiva olha antes para o ciclo económico. Portugal bateu no fundo da sua recessão em 2013. Tendo caído mais do que quase todos os outros países europeus, seria “normal” que crescesse mais depressa do que eles desde então. Por exemplo, os irlandeses sofreram com a crise, mas entre 2013 e 2017 cresceram 47,4%. Mais próximo de Portugal, os espanhóis tiveram uma recessão semelhante à portuguesa, incluindo um forte abano no sistema financeiro. Ao contrário dos portugueses, eles vivem há anos num ambiente de instabilidade política, com novos governos, partidos, radicalismos, e até separatismo. Apesar de tudo isto, a sua economia cresceu 11,8% desde 2013. A portuguesa cresceu 9,3%. Não se pode chamar a isto uma recuperação económica.

Uma terceira perspetiva nota que, depois das eleições legislativas terem produzido um governo minoritário que dependia da extrema-esquerda, muitos esperavam um agudizar da recessão em 2016.

Portugal surpreendeu pela positiva, e o governo socialista merece parte do crédito pela responsabilidade fiscal que demonstrou. Olhando para o ciclo deste governo, e usando as previsões da Comissão Europeia até ao final da legislatura, Portugal terá crescido 9,8%, acima dos 7,6% da União Europeia e dos 7,4% da zona euro.

Custa-me, no entanto, chamar a isto um sucesso. Em 2015, a República Checa, a Estónia, a Eslovénia, e a Grécia tinham aproximadamente o mesmo nível de riqueza do que Portugal. Mas os checos tornaram-se 2,5% mais ricos do que os portugueses durante o nosso governo socialista, os estónios 5,1% mais, e os eslovenos 6,4% mais. Só em relação à Itália e à Grécia é que ganhámos algum terreno.

Portugal teve um boom económico nos anos 60, descobriu os padrões de vida ocidentais com a democracia nos anos 80, e esperou progresso com a União Europeia nos anos 90. Estar satisfeito hoje com a nossa economia é reabraçar a resignação e o miserabilismo salazaristas.

Professor de Economia na London School of Economics

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