Opinião: Alberto Castro

Desconfiança

Fotografia: Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens
Fotografia: Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens

"Numa situação de emergência, uma declaração sob compromisso de honra do responsável pela empresa (...) deveria chegar para acionar [os apoios].”

A desconfiança é um vírus entranhado na sociedade portuguesa. Mesmo no meio de proclamações laudatórias sobre a atitude dos portugueses nesta crise, a desconfiança emerge até com justificações estapafúrdias: não se fazem mais testes pois dariam uma falsa sensação de segurança. São os maiores, mas não se pode confiar neles! Maior paternalismo e menorização dos portugueses era difícil. Que o argumento tenha surgido num bunker de insubstituíveis, como o INFARMED, não estranha. Que tenha contagiado, tão depressa, Presidente e Primeiro-Ministro já preocupa. Como preocupa não terem entendido que a massificação dos testes é essencial para rastrear os que no sistema de saúde, lares, forças de segurança, supermercados, empresas mantêm o país a funcionar. Esses têm o direito de não ver a sua angústia aumentada no desempenho de funções pelas quais todos temos de lhes estar gratos. Não têm tempo para as borgas citadinas que, porventura, estariam na mente de quem concebeu tão mal-amanhado argumento. A propósito: os drive through são úteis (parabéns aos autarcas!) mas, se o Governo tiver o sentido das prioridades, criará unidades móveis que possam deslocar-se aos locais de trabalho. Assim como deveria instituir senhas para combustível, facilitando um maior recurso ao transporte privado por parte desses trabalhadores, minorando a possibilidade de infeção por contágio em transportes sobrelotados.

Num contexto de desconfiança, não estranha que mesmo medidas ditas de emergência (lay-offs ou linhas de crédito), continuem embrulhadas em burocracias suspeitosas. Se há emergência, uma declaração sob compromisso de honra do responsável pela empresa, validada, no domínio contabilístico, pelo contabilista certificado (a respetiva Ordem seria um parceiro essencial), completada pela informação de que os bancos dispõem, deveria chegar para acionar aqueles mecanismos. Para o caso de, depois, se verificar não serem verdadeiras, prevejam-se as sanções que uma economia de guerra sanitária exige. Se é guerra, é guerra.

P.S. Já depois disto escrito, o Governo fez como o sugerido. Talvez a crise ajude a mudar hábitos…

 

Alberto Castro, economista e professor universitário

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