Opinião: Rosália Amorim

Desconfinar, sim, mas com colete salva-vidas

Foto: Rui Manuel Fonseca / Global Imagens
Foto: Rui Manuel Fonseca / Global Imagens

Em Espanha, as mesas das esplanadas encheram-se de cidadãos para, logo após o desconfinamento e a abertura de bares e restaurantes, serem bebidas as primeiras cervejas e comidas as primeiras tapas (presunto, queijo, batatas bravas e pão com tomate). Iremos ver o mesmo, com menu lusitano, já nesta segunda-feira, nas esplanadas portuguesas? Seria um bom sinal para ajudar a ressuscitar a economia, mas julgo que os portugueses serão mais prudentes do que foram os espanhóis: sairão à rua desconfinados, mas cautelosos, atentos à evolução do número de novos contágios e de mortes por covid-19. Epifenómenos com os da Azambuja e do Montijo acordaram, de novo, fortes preocupações.

O país precisa agora de melhorar o índice de confiança nas medidas preventivas de saúde e também o índice de confiança dos consumidores, para que adquiram mais produtos e serviços e, deste modo, promovam a manutenção do emprego. O problema é que, além dos novos contágios (ainda a rondar os 300 por dia), o rendimento das famílias encolheu e cada euro gasto vai ser mais ponderado do que era na primavera e no verão de 2019.

Inicia-se agora a segunda fase de desconfinamento em Portugal e, a meu ver, nunca foi tão importante apoiar o comércio local e os produtores nacionais como hoje. Estes foram duramente prejudicados com o encerramento provocado pela pandemia de covid-19. Está na altura de apoiar e promover o made in Portugal ou o Portugal Sou Eu sem dizer não à globalização. Chamem o que quiserem a uma nova campanha para comprar o que é português, mas é preciso divulgar os produtos nacionais e apelar à consciência e à carteira de cada um.

Existem algumas movimentações nesse sentido, de grandes e pequenos players nacionais e até do governo. Mas, tal como em muitas outras medidas de combate aos efeitos da pandemia, é preciso ser mais célere, sob pena de chegarmos ao verão e muitos deles terem falido.

Há várias lições a aprender com esta crise e uma delas tem que ver com o papel dos produtores nacionais e do comércio de proximidade na dinâmica das nossas cidades, vilas e aldeias. Por exemplo: precisaremos mesmo de atribuir mais licenças para a abertura de grandes superfícies e centros comerciais? Depois desta crise e do avanço do e-commerce, será que o país precisará de tantos imóveis para o retalho?

Aprender com a crise não pode ser só uma narrativa que fica bem nas webinars (conferências online) e nas televisões. Aprender com a crise tem de ser uma nova ferramenta e competência de gestão. Parece óbvio, mas para problemas novos não servem velhas fórmulas.

Apoiar, e depressa, o tecido empresarial das micro e pequenas empresas, que representam a extensa malha da realidade nacional, é injetar sangue novo na economia. Não fazê-lo é comprar problemas sociais e económicos para o curto e médio prazo.

Este trimestre, de abril a junho, é decisivo para reabrir espaços e esplanadas há muito fechadas. Ainda assim, não vamos passar de coxos a velocistas. Certamente, será necessário prolongar o regime de lay-off por mais três meses, ainda que seja um encargo brutal para o Estado e que os privados não deem sequer como garantido que conseguem pagar a sua parte. Esta hipótese é urgente no turismo e no comércio.

A ver vamos que ministro das Finanças teremos no final de junho e com que vontade e disposição de apoiar mais a economia, em vez de olhar apenas para o défice e mandar apertar o cinto quando já não há barriga nem cintura para segurar as calças. A próxima entrada no verão pode ser feita não a despir a roupa, como é habitual, mas a vestir um colete salva-vidas para se tentar chegar são e salvo a setembro ou ao final do ano.

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