Opinião: Ana Rita Guerra

(Des)gostos no Instagram

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As imagens nas redes são máscaras sociais como quaisquer outras, mas a ditadura do “gosto” é real e o seu fim será positivo

A gratificação instantânea prometida pelo Instagram, com o número de “gostos” a estimular a produção de dopamina no cérebro, era uma faceta positiva da interacção na rede social. As notificações a pingar no smartphone assumiam um ar de validação e o que se extraía dos outros parecia ser tão forte quanto o que se dava. O Instagram era a sublimação da imagem com mensagem, um espaço de expressão com uma identidade distinta.

Algures entre os feeds curados, os algoritmos, os influenciadores e as hashtags estratégicas, essa ilusão perdeu-se e o que surgiu com nitidez foi uma amálgama de vidas falsificadas, decepção e rancores.

O estilo de vida instagramável sobrepôs-se à artificialidade dos filtros e tornou-se uma arte – em vez de fotografar o quotidiano para o partilhar, passou a moldar-se o quotidiano para que parecesse fotografável. As longas legendas, as lições de contracapa de revista, os estômagos encolhidos e os bíceps artilhados ajudaram a montar esta teia que joga com sombras quando parece, pelo contrário, usar a luz.

Já andamos nisto há tempo suficiente, mais de uma década, para saber que as imagens que projectamos nas redes são máscaras sociais como quaisquer outras, mas a ditadura do “gosto” é real. E é por isso que a retirada desta métrica do Instagram é um passo tão importante para restituir alguma sanidade à rede.

No ano passado, uma famosa mãe do Instagram, Katie Bower, publicou uma longa legenda no aniversário do filho mais velho a lamentar o seu mau desempenho nas estatísticas do Instagram. As suas fotos eram as menos populares dos cinco filhos, escreveu, e um dia ele iria ver esses números. Então, “terá de aprender que o seu valor não reside na aprovação online.”

A falta de autoconsciência desta mãe foi justamente criticada na altura, mas espelhou com rigor a cultura de obsessão com a acumulação de “gostos” que durante muito tempo fez e desfez carreiras na esfera da Insta-influência.

Pode ser que tenhamos chegado ao limite desta bizarria. A eliminação da contagem pública de “gostos”, que ainda está a ser testada, obrigará a medir o desempenho das publicações de outra forma, o que é um desafio para as marcas e influenciadores mas um tremendo alívio para os utilizadores normais. Não há cá mais embaraço porque aquela foto que se achava tremenda não convenceu muita gente. Não há cá mais comparação com o quintal do vizinho, o “like for like” e outros desesperos desta estranha forma de vida computadorizada. Talvez seja possível restituir o Instagram ao que foi inicialmente, buscando nele um espaço de exposição e partilha sem a ansiedade da aclamação pública constante.

Para os influenciadores, o desafio será olhar para o envolvimento que a audiência tem com os conteúdos, na forma de visualizações e comentários, o que parece ser mais apropriado para o cargo que pretendem ocupar. As marcas terão de fazer melhor o trabalho de casa e deixar de olhar só para o número de seguidores e de “gostos”, o que tantos dissabores trouxe por causa da praga dos falsos influenciadores, dos “gostos” robotizados e das trocas de favores. E os utilizadores comuns, que aprenderam a fotografar os seus melhores ângulos durante a hora dourada, terão menos comparações a fazer e mais para (simplesmente) apreciar.

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