Desigualdade e populismo

O principal argumento económico por trás da antiglobalização tem que ver com o aumento da desigualdade nos países ocidentais nos últimos 20 ou 30 anos

O referendo constitucional italiano daqui a menos de duas semanas pode levar ao poder do ex-comediante Beppe Grillo e a um referendo para a saída da UE. Isto depois da eleição de Trump nos EUA, do brexit no Reino Unido e da liderança nas sondagens francesas de Marine Le Pen.

Em Portugal, o discurso antieuropeu e protecionista do PCP e do BE têm 20% das intenções de voto e são peça fundamental do apoio ao governo. Todas estas vitórias eleitorais têm em comum a antiglobalização. Muitas vezes, apoia-se em argumentos nacionalistas com vestes culturais ou racistas. Mas também têm um fundo económico.

O principal argumento económico por trás da antiglobalização tem que ver com o aumento da desigualdade nos países ocidentais nos últimos 20 ou 30 anos. Embora esta discussão só tenha saltado para a ribalta nos últimos anos, já desde o início do século que existia um aceso debate nos meios académicos sobre o que estava por trás do aumento da desigualdade.

Uma das hipóteses é o efeito que a concorrência dos países desenvolvidos no comércio internacional teve em alguns setores dos países desenvolvidos. Foram sobretudo as pessoas com poucas qualificações que perderam os empregos. Embora tenham sido também elas que mais ganharam com os preços mais baixos nos produtos vindos da China, no total elas acabaram por perder. Outra hipótese aponta para as mudanças tecnológicas que levaram as máquinas e as tecnologias de informação a substituir empregos em tarefas rotineiras. A globalização permitiu estas mudanças.

Embora a maioria concorde que a globalização melhora o bem-estar, os resultados eleitorais têm levado muitos a concluir que temos de nos concentrar mais nas políticas redistributivas. Só desta forma, tirando aos que ganharam e dando aos que perderam com a abertura das fronteiras, é que podemos garantir que não só o país como um todo mas também uma larga maioria das pessoas ganham com a globalização. Sendo assim, o que tem de ser reformado é o Estado social, que falhou na sua tarefa de redistribuição e criação de oportunidades.

O mais provável é esta perspetiva estar correta. Mas também há dúvidas legítimas. A subida dos movimentos populistas tem-se dado quer em países com um Estado social forte, como a França, quer em países com menos redistribuição, como os EUA. O maior fator de desigualdade é o desemprego, mas foi no Reino Unido, onde o desemprego é baixíssimo há uma década, que o brexit ganhou. Por fim, a desigualdade está a subir a um ritmo constante há décadas, mas só nos últimos anos é que o populismo cresceu.

Existe uma hipótese alternativa por trás quer do aumento da desigualdade quer dos resultados eleitorais, mas que nada tem que ver com a globalização. Explico-a na próxima semana.

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