Ricardo Reis

Desigualdade e populismo: alternativa

EPA/SHAWN THEW
EPA/SHAWN THEW

Quando olhamos para quem votou brexit ou Trump, vemos uma grande preponderância de eleitores mais velho

Politicamente, o último ano foi marcado pela subida de partidos de extrema-esquerda e direita nas sondagens e pelas vitórias eleitorais de agendas populistas, como nos casos do brexit e Trump. Uma hipótese popular associa esta subida eleitoral ao aumento da desigualdade, e propõe que se reforme o Estado social prestando mais atenção às políticas redistributivas.

Esta hipótese provavelmente está, pelo menos parcialmente, correta. Mas a subida do populismo e do protecionismo aconteceu quer em países que redistribuem muito (França) como naqueles que redistribuem pouco (EUA). Ela emergiu só nos últimos anos, enquanto o aumento da desigualdade já ocorre há pelo menos 20 anos.

Uma explicação alternativa nota que o principal fator por trás do aumento na desigualdade da riqueza nos países ocidentais foi o aumento no preço do imobiliário no centro das cidades. Quem ganhou mais foram os locais, de meia-idade ou idosos, e em grande parte isto aconteceu por causa da lista extensa de regulamentos ambientais e urbanísticos que eles aprovaram, não permitindo novas construções. Por sua vez, é novamente quem tem mais de 50 anos que aprovou na Europa leis de trabalho que dificultam perder o seu emprego, e aprovou nos EUA leis de pensões que lhes garantem reformas muito acima do que contribuíram.

O outro lado da medalha são os mais jovens. Eles não conseguem comprar casa perto do emprego no centro das cidades e vivem com os pais ou moram nos subúrbios. Apesar das suas qualificações, eles não conseguem arranjar emprego, porque as entradas estão todas fechadas, independentemente de serem melhores ou produtivos do que os que têm emprego protegido. Embora eles não possam contar com uma pensão de reforma quando forem mais velhos, têm na mesma de pagar pesadas contribuições sociais para manter as pensões atuais.

Quando olhamos para quem votou brexit ou Trump, vemos uma grande preponderância de eleitores mais velhos. Do outro lado, no Reino Unido, 75% daqueles com menos de 24 anos votaram contra o brexit, e a enorme surpresa nas urnas foi a participação de votantes mais idosos. Nos EUA, Clinton teve 55% dos votos contra 37% de Trump entre os eleitores com 19-29 anos. Quando perguntamos a quem votou brexit ou Trump porque o fizeram, ouvimos falar da nostalgia do passado e do receio de mudança.

Estes votos interpretados como votos antiglobalização são votos contra os mais jovens. São votos de quem não quer ver o seu emprego ameaçado a menos de dez anos da reforma, não quer cortes nas pensões e não quer que o valor da sua casa baixe. Eles surgem e crescem nos últimos cinco anos porque a crise económica criou um impulso reformista que ameaça o statu quo, sobretudo das populações mais velhas.

Não sei se esta explicação alternativa é superior à hipótese mais popular. Mas espero que ela (e outras) seja levada a sério em vez de se aceitar tão rapidamente o recuo da globalização que nos vai deixar, como um todo, mais pobres e menos livres.

Professor de economia na London School of Economics, em Londres

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