Desperdício de talento

Portugal Football Observatory fez um estudo que demonstra que os nascidos no primeiro trimestre têm maior probabilidade de serem futebolistas. Há já uns anos que conhecia este fenómeno.

O escritor de futebol Michael Calvin conta, no No Hunger in Paradise, a história de meados dos anos 90 que alertou a comunidade futebolística para este problema.

Um pai de uma criança recusada pelo Arsenal ouviu de um treinador que, em princípio, o filho não singraria no futebol porque nascera em dezembro. Esse pai, intrigado com o veredicto, estudou as datas de nascimento dos participantes nas fases finais das competições de seleções e constatou a predominância de nascidos no primeiro semestre, em particular de janeiro a março.

Como os escalões são definidos por ano de nascimento, há jogadores da "mesma idade" com quase um ano de diferença. E os treinadores, seja por campeonite ou por não perceberem o efeito da idade relativa, tendem a escolher os nascidos no primeiro trimestre do ano.
O estudo do PFO refere que, em Portugal, 26,6% dos jogadores federados em escalões de formação em 2019/20 nasceram de janeiro a março (25,1%, 25,5% e 22,8% nos trimestres seguintes). Nota-se a tendência, mas não impressiona. Porém, este fenómeno só se torna bem visível nas elites.

A triagem em idades precoces é enviesada e tem consequências. Na última convocatória das seleções sub-18, sub-17 e sub-16, em 73 convocados 41 nasceram no primeiro trimestre e 15 no segundo, restando os 17 do último semestre. Capricho astrológico? Não creio.

Uma criança talentosa preterida pelos melhores clubes pode abandonar o sonho de ser futebolista, desmotivar-se ou ser prejudicada por não beneficiar de bons treinadores, condições e competitividade nos treinos.

Num país exportador de futebolistas e parco investimento, este é um tema de redobrada importância.

Calvin, no tal livro, referiu que, em 2016, eram ainda poucos os clubes que tentavam minimizar o problema da idade relativa. Exceções mencionadas: Ajax e Barcelona. Somos muito bons, mas há margem para melhorar.

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