Desurbanização: um novo paradigma?

A história das civilizações confunde-se com a história do trabalho e com a sua organização. A revolução industrial chamou às cidades milhões de pessoas, que procuravam condições de vida melhores do que aquelas que a vida no campo lhes reservava. Desde então que os desequilíbrios demográficos entre os centros urbanos e as zonas rurais se tem vindo a acentuar cada vez mais. Em 2019 a ONU previa que, até 2050, 70% da população mundial vivesse em cidades. Hoje, segundo o mesmo organismo, essa percentagem deve situar-se entre os 55% e os 60%.

Entretanto passaram 200 anos desde o início da Revolução Industrial. O Homem, as sociedades e a organização do trabalho mudaram muito. As cidades continuam a ser, aos olhos de uma esmagadora maioria, e em grande parte dos casos por imposição de um vazio de alternativas, um mundo de oportunidades e sonhos. Mas até quando?

A verdade é que a rapidez com que os conceitos nos vão surgindo é cada vez maior e hoje, muito daquilo que Steven Spielberg fantasiava nos blockbusters dos idos e saudosos anos 80, é já uma realidade do nosso quotidiano. A indústria 4.0 e a digitalização fazem parte das nossas vidas e o ano passado a pandemia tratou de nos acelerar o passo em direção ao teletrabalho. Um conceito que começava a ganhar alguma expressão, sobretudo nas empresas de maior dimensão e de perfil mais tecnológico, mas que "ameaça" ser a grande mudança no paradigma do trabalho dos próximos anos.

E então, podendo eu escolher onde posso trabalhar porque a minha empresa assim o determina, porque razão quererei continuar a viver numa grande cidade? O que me prende a esta azáfama, a este ritmo desenfreado e desconcertante? Um amigo de longa data, que emigrou há muitos anos para a Holanda, confessou-me o ano passado que a empresa onde trabalha pondera fechar o escritório e "convidar" os seus 600 colaboradores a trabalhar a partir de casa e em definitivo. Ou seja, implementar estruturalmente o teletrabalho. Perguntei-lhe:

- "Porreiro! Isso significa que vais voltar para Lisboa?"

Respondeu-me prontamente:

- "Não! Lisboa, não! Se voltar será para Sesimbra."

Como ele, tantos outros começam a fazer este mesmo raciocínio. Numa entrevista publicada a semana passada, a CEO da Remax em Portugal - Beatriz Rubio - referia que a procura de casas em zonas rurais (ainda que perto das grandes cidades) tem vindo a crescer consideravelmente nos últimos meses. Procuram-se essencialmente moradias com espaços verdes ou apartamentos com espaços ao ar livre. O apelo é inegavelmente forte e relevante e é sustentado por um considerável conjunto de variáveis, que vão desde o preço, as áreas ou as características das casas, até aspetos mais abrangentes como a mudança de estilo de vida ou a perceção de um ganho imediato na qualidade dos nossos dias que pode, inclusivamente, estender-se à melhoria dos nossos estados de saúde.

A História demonstrou-nos que o trabalho e a forma como está organizado foi determinante na evolução da demografia e da geografia do nosso planeta. E esta é uma realidade transversal a todos os continentes e culturas. Embora acredite que as cidades continuarão a ser muito atrativas para uma grande maioria de nós, será que o momento histórico que estamos a viver - o teletrabalho como novo paradigma - terá a força suficiente para, em certa medida, "esvaziar" os grandes centros urbanos? E se de alguma forma esse movimento se verificar, que implicações poderemos esperar a curto e longo prazo no mercado imobiliário, mas também na organização das cidades, no desaparecimento e nascimento de novos negócios e empregos, na vida de cada um de nós? As perguntas e as dúvidas são certamente muitas, como sempre foram cada vez que resolvemos alterar drasticamente as regras do jogo.

Tiago Gonçalves, residential coordinator e business developer da MVGM Portugal

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