Opinião

DIA a DIA a situação piora

Fotografia: REUTERS/Juan Medina
Fotografia: REUTERS/Juan Medina

É do conhecimento geral que o grupo DIA passa por sérias dificuldades financeiras necessitando urgentemente de um plano de reestruturação financeira que lhe permita resolver os constrangimentos de liquidez de curto prazo e possa garantir o futuro a longo prazo. Recorde-se que a empresa fechou o ano de 2018 com um prejuízo de 352,6 milhões de euros, dos quais Portugal foi responsável por 16,5 milhões, tendo ainda encerrado no nosso país 50 lojas, das quais 10 próprias e 40 franquiadas.

Neste sentido, a atual administração do grupo está a preparar um aumento de capital de 600 milhões de euros, operação assegurada pela Morgan Stanley, de modo a fortalecer os capitais próprios, feita através de uma operação inicial de redução do capital, em que o valor nominal das ações passa de 0,1 a 0,01 euros. Mas, por sua vez, o Fundo de Investimento Letter One Retail – controlado pelo empresário Mickahil Fridman, detentor de 29% do grupo – lançou, no dia 21 de fevereiro, uma OPA voluntária sobre a totalidade das ações que ainda não possui, pagando 67 cêntimos por ação. Pretendendo, depois de concluída a OPA e obtido o domínio da empresa, fazer também um aumento de capital no valor de 500 milhões de euros.

Fridman considera que o grupo DIA está à beira da falência técnica, uma vez que apresentou capitais próprios negativos de 166,1 milhões de euros na apresentação de resultados de 2018, com forte deterioração da marca. O empresário critica ainda o referido plano de recapitalização da administração, por não abordar os desafios estratégicos fundamentais de liderança e de estrutura de capital, expondo assim os acionistas ao risco de uma diluição significativa, sem criar uma estrutura de capital viável a longo prazo. Nesta conformidade, propõe um plano de reestruturação assente em seis pilares fundamentais, nomeadamente, numa nova proposta de valor comercial, no reajustamento dos preços e promoções, numa estratégia de rede de lojas mais adequada, numa nova liderança, no desenvolvimento do talento interno e na melhoria de execução das operações.

Entretanto, está igualmente em curso uma auditoria forense às contas dos últimos exercícios, pedida pela atual administração e realizada pela EY, de modo a confirmar a viabilidade financeira do grupo retalhista e do seu plano de ampliação de capital. A par foi anunciado um plano de alienação de 300 a 600 lojas, de forma a evitar o perigo de insolvência de todo o grupo. A possibilidade de aquisição destas lojas já despertou o interesse de alguns grupos retalhistas internacionais e não me surpreenderia nada se, em Portugal, a ALDI ou a Mercadona, aproveitassem esta oportunidade de mercado para expandir mais rapidamente as suas operações no nosso país e o mesmo fizessem o Carrefour e o Lidl, em Espanha.

Entretanto, a atual administração agudizou a situação, ao ameaçar solicitar a dissolução do grupo, no prazo de dois meses, caso a sua proposta não seja aceite na Assembleia geral marcada para dia 20 de março.

O formato discount evoluiu muito desde os seus primórdios na Alemanha do pós-guerra quando os irmãos Albrecht, num barracão de terra batida, abriram o primeiro ALDI, com um sortido limitado e espartano, destinado a satisfazer as necessidades básicas alimentares, de higiene e de limpeza. Na última década o retail discount deixou de ser Hard, passou a Light e é hoje Smart. Mas o DIA, embora nunca tenha sido um verdadeiro hard-discount, não conseguiu evoluir tão transformadora e rapidamente como os seus mais diretos concorrentes LIDL e ALDI, que sofisticaram as suas lojas. O DIA foi ficando parado no tempo na sua oferta, nos seus processos, na sua imagem e naturalmente, nas suas vendas.

Daí, a atual crise que o grupo enfrenta e que poderá mesmo levar ao seu desaparecimento dos mercados onde hoje atua e nos quais, dia a dia, a situação piora.

José António Rousseau, Docente e investigador da UNIDCOM/IADE/IPAM

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