Sérgio Pereira

Diz-me que rádios ouves, dir-te-ei que investidor és

radio

Será que um amante de jazz estará mais propenso a correr riscos do que um fã de hip hop?

Será possível determinar o tipo de perfil de investimento de alguém só com base no tipo de música que habitualmente ouve? Será que um amante de jazz estará mais propenso a correr riscos do que um fã de hip hop? E será que quem gosta de escutar um bom fadinho à portuguesa procurará apenas garantir retorno, ainda que baixo?

Aplicando este (bem-humorado) exercício às principais rádios de entretenimento de Portugal, arrisco-me – sem querer ferir suscetibilidades – a fazer uma intervenção sonora para demonstrar o tipo de investidor que se pode ser consoante as preferências musicais.

Depósitos a prazo: o menos arriscado é sempre o mais popular
Gira o disco e toca o mesmo – assim são os depósitos a prazo. Empresta-se dinheiro ao banco e recebe-se sob a forma de juros. Tal como é seguro haver festa com o Tony Carreira ou o Quim Barreiros, também aqui a remuneração do capital é garantida.
Passando ainda por Carlos Paião e Hermínia Silva, a oferta é variada, dá para subscrever com vários prazos (há desde miúdos a graúdos a cantar música popular) e o rendimento pode ser movimentado a qualquer altura sem perda de capital.
Assim, sim – era o que nos diria a Rádio Sim.

Fundos de Tesouraria: energia rítmica de qualidade que gera retorno
Da mesma forma que o jazz é sempre uma escolha segura para momentos específicos – como um jantar romântico à luz das velas ou para um ambiente mais seleto -, os fundos de tesouraria são a aposta mais prudente para investimentos de curto prazo (até um ano) com elevada liquidez (tais como bilhetes do Tesouro).

Aqui está uma boa alternativa aos depósitos a prazo, dado que gera um retorno próximo de 3% – tão rentável como as vendas de um álbum de Michael Bublé ou de Ella Fitzgerald, Miles Davis e Norah Jones –, as comissões de abertura são baixas e as de subscrição e de resgate inexistentes, o que permite que se remova a aplicação a qualquer momento.
Um investimento Smooth… mas com all that jazz!

Certificados do Tesouro: originalidade dá remuneração sempre certa
Como se costuma dizer, o que é nacional é bom. E se é do Estado, é seguro, assim como são os Certificados do Tesouro. Da mesma forma que uma rádio pública que promove os novos talentos nacionais consegue distinguir-se pela oferta, também estes produtos de dívida pública contêm um elemento diferenciador: podem ser adquiridos por particulares.

Os artistas hoje desconhecidos serão os discos de platina de amanhã (lembra-se de Canção ao Lado dos Deolinda?) e, à sua imagem e semelhança, o valor dos Certificados do Tesouro aumenta com o prazo e gera remunerações elevadas.

As pessoas gostam de ouvir aquilo que é novidade cá dentro (Capicua, Noiserv, Linda Martini…), logo o perigo é diminuto e o capital é garantido. Neste universo estão as faixas da Antena 3, a alternativa pop.

Certificados de aforro: melodias da nossa vida
Quantos artistas só se tornam verdadeiramente valorizados ao fim de uma ou duas décadas? Assim é com os certificados de aforro, que atingem o potencial máximo de rentabilidade ao fim de 10 anos e cujos prémios de permanência vão aumentando até ao final do prazo.

Trimestralmente, estes títulos pagam juros e esse dinheiro vai sendo reinvestido, o que aumenta a poupança de quem investe. Michael Jackson, David Bowie e Elton John são exemplos de reis da composição das décadas de 70, 80 e 90 cujas melodias se foram tornando ainda mais rentáveis com o tempo.

Ao comprar este produto, é como se estivéssemos a ceder ao Estado português, logo o risco é reduzido (quase como aquele CD dos UB40 que todos apreciam…). Na Jukebox da M80, o retorno a longo prazo é garantido.

Investir no segmento jovem é ouro sobre azul
Uma rádio que passa maioritariamente grandes êxitos comerciais é a rádio preferida do público mais jovem. No entanto, está muito dependente de grandes hits e, por isso, embora seja certo que a sua existência será sempre necessária, acaba por ser incerto o seu sucesso permanente.

É o que acontece se investirmos no ouro. Uma vez que o seu valor oscila consoante a procura e a oferta no mercado, encher-nos de barras deste metal precioso não garante um lucro elevado nem que recuperemos a totalidade do investimento.

Quão valioso é o Hotspot da Cidade FM? Será também uma reserva para o futuro? O ouro, isso é certo, só vale por aquilo que representa nesse período específico.

Obrigações: acordes a flutuar num super investimento
Quanto mais vamos mexendo no sintonizador, mais facilmente podemos perder o sinal da antena. Se se investir em obrigações, o montante do capital poderá nunca ser devolvido… A boa notícia é que, se for retribuído, rende bastante.

Concedemos música dance, pop e rock a um determinado público e, em vez de beneficiarmos diretamente dos lucros desse empréstimo, recebemos uma taxa fixa – é o que acontece com as obrigações. Portanto, mesmo que a rádio não tenha uma performance excelente, isso não afeta o valor da aplicação. Ainda assim, as emissões dependem das audiências, da mesma forma que a oscilação das taxas de juro da economia em geral faz flutuar o valor das obrigações.

Se tivéssemos de apostar nas sonoridades da Mega Hits valia a pena como investimento a manter no longo prazo (há obrigações com um prazo de validade até 30 anos). Bom, isto é (mesmo) Mega!

Ações: Só Grandes Músicas para grandes investidores
Chegamos àquele ponto em que começamos a estar muito dependentes das expetativas do mercado – incerteza e sensibilidade às mudanças económicas são as palavras de ordem. É o que acontece a uma rádio que passa música de vários estilos para diversos segmentos, mas é também o que sucede com as ações.

Estes poderosos títulos requerem bons conhecimentos da Bolsa (tal como uma rádio deste género precisa de estar bem preparada para agradar a gregos e troianos) e permitem adquirir parte da propriedade de uma empresa – para além de emissores, é como se passássemos também a recetores em simultâneo.

Decerto estaríamos dispostos a investir nos ousados Telefonemas do Nilton, por isso a rádio RFM seria eficaz como investimento de longo prazo e renderia imenso. Mas se a sua popularidade descer, o valor das ações decai também e, enfim, podemos afundar-nos num verdadeiro Oceano Pacífico, perdendo o dinheiro investido.

Hedge funds: perigo de decibéis elevados
É nos mercados com alta volatilidade que se podem produzir os melhores resultados. A começar pela Mixórdia de Temáticas, o objetivo de um gestor de um hedge fund é obter benefícios substancialmente maiores do que com os fundos tradicionais – e é assim que ele investe em O Homem que Mordeu o Cão. Super arriscado? Sim. Pode perder todas as poupanças de uma vida quando Rebenta a Bolha? Sem dúvida.

O capital mínimo para investir neste tipo de títulos é muito elevado e estão acessíveis a um número limitado de pessoas. Trata-se do maior risco de todos, mas é aqui que prospera o maior retorno. Seja em casa, no carro, em todo o lado, quem investir nos hedge funds vai precisar de sintonizar a Rádio Comercial para manter a boa disposição mesmo quando as coisas correm menos bem.

Então com que sonoridade vibram os teus investimentos?
O meu conselho para quem tem vontade de arriscar, mas tem medo de ficar sem nada, é o de que o melhor mesmo é diversificar: investir em várias aplicações ao mesmo tempo, combinando vários produtos, para o caso de um deles estar a ultrapassar uma má fase.

Embora seja mais perigoso apostar em produtos de alto risco, todavia, o retorno destes pode ser bem mais alto. Tudo depende da propensão ao risco. Este é o preço a pagar para se poder ter mais (e rápido) rendimento. Ou apostamos naquelas letras que sabemos de cor, ou decidimos arriscar e vamos em busca de novas sonoridades e investimentos.

O autor é fundador da plataforma gratuita de simulação de produtos financeiros Compara.Já.pt

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