DJ Pinacolada

Tudo começou no final dos anos 90, quando a minha namorada na altura decidiu surpreender-me nos meus anos.

Tudo começou no final dos anos 90, quando a minha namorada na altura decidiu surpreender-me nos meus anos, fazendo uma vaquinha com os meus amigos, oferecendo-me todo o equipamento de DJ. Comecei por pôr música em festas particulares, bares, até à estreia numa discoteca em Segóvia. Nascia o DJ Pinacolada. Quando comecei, era conhecido pela boa seleção musical, mas também pelos “pregos” que metia. As minhas misturas eram muito más, não conseguia atinar com os tempos das músicas.

Demorei um par de anos até saber misturar. Nestes 15 anos pus música em muitos lugares, alguns deles fora de Portugal, tal como Madrid, Londres e São Paulo. Conheci muitos DJs profissionais de quem hoje ainda sou amigo. O mundo dos DJs é altamente competitivo. Para se ser DJ não basta por boa música. É preciso sair com muita frequência, falar com os donos dos clubes, dar-se com outros DJs. Conta bastante para o dono do bar ou discoteca, a qualidade e quantidade do público que o DJ atrai. As minhas festas costumavam ser animadas, e como não punha música todos os fins de semana, mas sim uma vez por mês, ou cada dois meses, havia o fator novidade e as pessoas vinham.

O DJ e o criativo publicitário têm várias coisas em comum. São ambos artistas. Bom, hoje em dia os criativos já não são tão artistas, são mais os profissionais que transformam estratégias em ideias para marcas. Os criativos tiveram o seu tempo Madmen, onde se ganhava muito dinheiro e todas as loucuras eram permitidas. Os DJs fizeram o percurso inverso, do quase anonimato dos anos 70, 80, até hoje em dia, onde enchem estádios e viajam de jato particular para Ibiza.

Preparar uma sessão é o mesmo que preparar uma reunião. Nas primeiras vezes que pus música, toquei com o instinto, sem preparar nada. Às vezes corria bem, outras nem tanto. Com o tempo, comecei a pôr de parte os discos que queria levar, a preparar a história que queria contar, e as noites corriam muito melhor. Não gosto de ensaiar as apresentações de trabalho, mas gosto de saber o que vou apresentar de fio a pavio.

Sempre desconfiei dos DJs que aceitam pedidos. Quando punha música, houve algumas vezes que me pediram para tocar reggae. O estilo que eu toco é house-techno, se fosse colocar uma música reggae no meio da minha sessão, o mais certo era sair um Frankenstein e esvaziar a pista. Tal como um criativo que tenta satisfazer os desejos de toda a gente. Deixa que todo o mundo meta o bedelho, fazendo com que o trabalho no final seja uma manta de retalhos, sem personalidade e relevância. É importante ouvir o que os colegas têm para dizer, mas no final alguém tem de tomar uma decisão e para isso é preciso uma só voz criativa em vez de um coro descoordenado.

Quando o DJ deixa de sair à noite, deixa de aparecer. Os donos dos clubes não o veem, deixam de o chamar, e trabalho dele fica datado. Desaparece do mapa. Tal como um criativo que trabalha por muito tempo em agências que não lhe permitem fazer trabalho para pôr no portfólio. Somos o que fazemos, por isso se não fazemos nada, desaparecemos.

A carreira de DJ era curta. Hoje em dia os maiores DJs a nível mundial, têm para cima de 40 anos. O mesmo se passa com o criativo. Há 20 anos, um criativo com 30 anos era velho; hoje um criativo com 30 anos, nem a meio da carreira vai.

O DJ tem de saber o que o seu público gosta. É para isso que as pessoas pagam para o ouvir. É um pouco o se passa com as campanhas que criamos. Temos de ter a habilidade de saber ler o público a quem nos dirigimos. Um publicitário tem muito mais data à disposição que um DJ, mas mesmo assim o instinto conta. Temos de saber separar o gosto pessoal do gosto do público-alvo.

O critério. O critério é subjetivo mas vai sempre haver um DJ a passar Ai se eu te pego do Michel Teló e outro a passar The Man With The Red Face do Lauren Garnier, como vai haver criativos a fazer manifestos filmados e outros a ativar marcas que conectam com a cultura popular.

Tenho saudades do Pinacolada, de pôr música. Do que não tenho saudades é de quando voltava para casa às quatro da manhã e tinha de carregar até ao 4.o andar sem elevador, duas malas cheias de discos de vinil.

North American Executive Creative Director na VMLY&R NY

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