Do cansaço de Biden renasce um Trump?

Há uma coisa que parece clara depois do debate desta madrugada. Sem o surgimento desta pandemia e a gestão desastrosa e errática de Donald Trump com custos humanos, sociais e económicos devastadores para os EUA, dificilmente Joe Biden teria chances de ganhar as eleições do próximo dia 3. Parece impensável, mas é a realidade. O partido democrata americano conseguiu escolher um candidato pouco enérgico e que às vezes chega mesmo a parecer perdido no meio do confronto político.

Nem a intervenção acutilante, demolidora de Barack Obama na quarta-feira em Pensilvânia que trocou o famoso mojo de when they go low... we go high por o de we fight back, parece ter surtido efeito. Se é verdade que Joe Biden começou o debate de forma bastante viva nas críticas à resposta da atual administração ao Covid-19, rapidamente se apagou com os ataques que Trump fez à China pelo surgimento e gestão da pandemia. O argumento de que os democratas simplesmente parecem querer fechar os EUA e com isso prejudicar a maioria dos negócios locais e nacionais também pedia uma resposta convincente. (Não era difícil...) De regresso ao capítulo chinês, Biden começou por expor a fraqueza de Donald Trump em ter afastado os países amigos e aliados dos EUA na geopolítica e com isso, a China ter ganho uma influência global maior do que nunca. Mas no meio deste tema relevante e que merecia aprofundamento, o candidato democrata decide desviar-se, entrando pela demagogia adentro com um apelo ao povo americano. O faro político de Trump fez o resto e com isso, nasce toda uma linha estratégica utilizada ao longo do resto do debate, sem que o candidato do partido democrata conseguisse ou sequer a procurasse refutar eficazmente: a de que Joe Biden é um político cheio de conversa e pouca ação. Quando está apertado, vem com fait-diverts. Ele, Trump, é o antipolítico. Ou seja, em 2016 foi o candidato anti-establishment. Em 2020, o antipolítico.

Os americanos vivem de slogans e este bem pode colar no pouco tempo que resta da campanha eleitoral.

Na questão do clima, o atual presidente também me parece ter marcado mais pontos. Enquanto o plano verde de Joe Biden responde às urgências do tempo e surge, por exemplo, em uníssono com o da Europa, Trump desfá-lo pelo tombo económico que significará para o país. Ao justificar a sua saída do acordo de Paris pelas mesmas razões, a melhoria considerável na diminuição de emissões de CO2 nos EUA dos últimos anos, sem que se deixasse cair outras indústrias, Trump pareceu o impensável aqui. Mais conhecedor. A sustentação destas melhorias em comparação com países como a China, Índia e Rússia também me parece dizer bastante mais ao americano médio do que o facto de estar alinhado ou não com a Europa.

O melhor de Joe Biden foi o facto de procurar falar para o país transversalmente, fazendo com que Trump se mantivesse agarrado ao discurso para as bases. Eu vejo os EUA. Não olho para estados vermelhos ou azuis. Contrariamente ao atual presidente. O pior de Biden é que em vez de dez, faz com que o atual presidente americano pareça vinte anos mais novo.

É possível que o debate de ontem já não tenha contado e que não estejamos a assistir ao renascimento eleitoral de Trump. Já houve muitos milhões de americanos que votaram antecipadamente. Dificilmente ainda haverá indecisos e falta pouco mais de uma semana para a América começar a sarar ou continuar a quebrar. Para lá das fake news, teorias da conspiração e insultos públicos, Donald Trump já não deveria significar muito. Assim, esperam muitos, tal como eu que não haja americanos a deixarem-se enganar pela postura mais equilibrada de ontem.

Seja como for, mais uma vez, a América e o mundo também mereciam mais do que esta escolha do partido democrata. Isso voltou a ficar claro. Não há decência de Biden que o consiga esconder.

Gonçalo Ribeiro Telles, Consultor de Comunicação e Analista Político

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