Doutores e engenheiros

Proponho a aplicação de uma pesada multa a cidadãos e cidadãs que se tratem por doutor(a) e engenheiro(a).

Proponho a aplicação de uma pesada multa, ou mesmo a prestação de trabalho comunitário, a cidadãos e cidadãs que se tratem por doutor(a) e engenheiro(a). Vergonha alheia é uma expressão forte, mas não me vem mais nada à cabeça de cada vez que vejo pessoas, maioritariamente pertencentes à classe política, usar e abusar desta terminologia. O doutor e engenheiro é um mau costume que ficou do tempo em que Portugal era um país pobre e subdesenvolvido, onde havia meia dúzia de pessoas com curso superior. Hoje, qualquer empregado de caixa de supermercado andou na universidade.

Segundo o site pordata.pt, em 2019 a média de pessoas com curso superior na UE é 39,2%, sendo que na Itália é 27,7%, na Alemanha 32,9% e em Portugal 36,9%. Ou seja, não estamos nada mal. Tirando em Portugal ou no Brasil (outro país que sofre deste complexo) um doutor é alguém que passou anos a estudar medicina. Doutores são aqueles que salvam vidas, e não aqueles que tiraram um curso de contabilidade, relações internacionais, ou até de direito.

E se eu vos disser que o meu curso se chama Engenharia Publicitária? Não sei se o curso ainda existe mas há 28 anos era o único curso de publicidade em Portugal que garantia licenciatura. Este foi o argumento que a minha mãe encontrou para me convencer a optar por este curso em detrimento do curso do IADE, que na altura só dava direito a bacharelato. O curso era ótimo, deu-me boas bases de marketing e publicidade que foram importantes na minha carreira, mas o nome era presunçoso e desnecessário.

Ser engenheiro publicitário foi uma coisa que sempre me deu um tiquinho de vergonha, mas que para outros era um motivo de grande orgulho. Lembro-me de um grupo de amigos que frequentavam o ano antes do meu, terem montado uma agência de publicidade numa casa rural, para os lados da Trofa. A agência foi fundada por quatro engenheiros com idades a rondar os 22 anos: o Engenheiro Diretor Criativo, o Engenheiro Chefe da Estratégia, o Engenheiro Chefe do Serviço a Clientes e o Engenheiro Chefe de Produção. Eram todos engenheiros, sócio-gerentes e chefes... deles mesmos. Mas na aldeia toda a gente os respeitava e os tratava por “engenheiro”. De certeza que hoje em dia ainda fazem questão que os tratem por engenheiros, sem nunca terem construído uma casa, uma ponte ou um hospital.

É claro que estou a brincar quando proponho uma multa pesada ou realizar trabalho comunitário para quem insiste em perpetuar estes maus hábitos, resquícios de um Portugal parolo, cinzento, de décadas de ditadura seguidas de cavaquismo conservador. Mas até quando estes hábitos de país subserviente vão continuar? Portugal já não é esse país. Portugal não é um país de analfabetos com meia dúzia de doutorados. Portugal é um país moderno, colorido, preparado, aberto, equipado. Portugal é muito mais que um país de grandes futebolistas e bonitas paisagens. Portugal é um país que deixa as pessoas que o visitam de queixos caídos e para onde o talento estrangeiro quer vir morar. Portugal é um país, que como emigrante e embaixador do país no estrangeiro, me enche de orgulho. Não é por nós tratarmos por doutor ou engenheiro que garantimos que nos respeitem. O respeito é algo que se conquista, não vem com um título académico.

North American Executive Creative Director na VMLY&R NY

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