Opinião

E a criatividade?

Carlota Ribeiro Ferreira

Volto então a mim. Se eu tivesse de identificar três características-chave por detrás da criatividade estas seriam: curiosidade, coragem e compromisso. E o compromisso aqui é realmente essa grande vontade de levar o presente para o futuro de forma diferenciada e com sustentação de progresso.

Para mim, é sempre um desafio falar sobre criatividade. Primeiro porque faz muito parte da minha essência, segundo porque não existem fórmulas, e por isso acredito que acima de tudo temos de nos conhecer a nós próprios, entendermos o nosso estilo e as nossas dinâmicas, estudarmos muito bem os desafios que temos em mãos, ativarmos as nossas ambições e, situação a situação, vermos a melhor forma de potenciarmos a criatividade para levar tudo mais longe.

Mas será que posso falar de criatividade? Sim, numa visão muito pessoal sobre a matéria e num ensaio simples e não exaustivo mas que pode ser útil para afastar alguns medos. Vamos então. Neste artigo, e para adequar a narrativa à minha experiência na criação e nos saberes criativos, começo por falar um pouco sobre o contexto exigente e desafiante em que vivemos e que coloca a criatividade como um dos traços mais críticos das culturas corporativas, devendo ser trabalhado enquanto competência transversal junto de todas as pessoas. Depois, partilho como vejo a criatividade e como me vejo a mim na criatividade. Por fim, as minhas inspirações bibliográficas, que por serem pouco óbvias talvez deem pistas interessantes sobre a preparação ampla e interdisciplinar que acredito ser importante ter quando se lidera ou se está envolvido em processos criativos. Mais uma vez, é um ensaio que surge de uma visão muito pessoal sobre o tema.

1. Sobre os nossos tempos. Penso que não há muitas dúvidas de que vivemos hoje num contexto de incerteza e complexidade que requer enorme criatividade, agilidade e rapidez. Com a evolução dos tempos, não só os fatores de criação têm novas dimensões como o ritmo com que criamos tem novas métricas. Mais, há aspetos essenciais mas há aspetos evolutivos, que decorrem de circunstâncias, dos avanços científicos e tecnológicos, de novas formas de pensar e de estar, do modo de vida das pessoas, das suas consciências e ambições, do que procuram, e claro dos novos modelos das organizações e dos negócios. Há de facto novos paradigmas, novas questões que devemos colocar para estar na linha da frente do pensamento criativo e da transformação.

Mais do que nunca, a criatividade é uma competência fundamental e vale a pena refletir sobre o conceito, as condicionantes e as dinâmicas que podem contribuir para processos criativos mais bem-sucedidos.

É a criatividade que nos permite ir construindo futuros, é a criatividade que nos faz avançar no tempo.

2. Sobre como vejo a criatividade e como me vejo a mim na criatividade. O conceito da criatividade é extremamente amplo, diria mesmo inesgotável e dinâmico. E há vários ângulos que podemos abordar: a criatividade em termos de conceito; a criatividade humana e como tudo funciona química e neurologicamente no nosso cérebro; a criatividade como motor de crescimento dos negócios; a criatividade aliada ao espírito livre de pura e simplesmente criar e fazer arte ou invenção; a criatividade que nos diverte e nos faz mais feliz nas relações, nos momentos e na vida; a criatividade que move sociedades e nações para novos tempos. Para mim, todos os ângulos importam. Considero a criatividade essencial, acredito que a criatividade se trabalha, se desperta e se promove. É uma questão de atitude na vida, de querermos levar o presente para o futuro de forma arrojada e diferenciada. É colocarmos o nosso melhor génio e brio no caminho e inspirarmos os outros a fazerem o mesmo.

Einstein dizia que a imaginação é tudo, é a antevisão do que aí vem. Henri Matisse dizia que a criatividade requer coragem. Picasso dizia que para criar, primeiro temos de conhecer bem as regras existentes para que depois as possamos quebrar. Walt Disney tinha um mote muito vivo e projetivo – ele dizia: ‘Aqui, nós nunca olhamos para trás durante muito tempo. Nós olhamos para a frente, estamos sempre a abrir novas portas e a fazer novas coisas, porque acima de tudo somos curiosos… e a curiosidade está sempre a levar-nos para novos caminhos’.

E trazendo-nos agora a discursos mais recentes, na semana passada, na Happy Conference 2020, Stefan Sagmeister, Julia Zhou e Alan Iny trouxeram outras ideias interessantes a ter em conta quando refletimos sobre criatividade. Sagmeister faz-nos um apelo à importância da beleza. Ele defende que a beleza importa. A beleza é parte do ser humano. As pessoas sentem o que é bonito. A beleza das coisas pode efetivamente mudar atitudes e inspirar comportamentos mais positivos. E diz mais, mesmo quando estamos mais perdidos na vida, sabemos reconhecer o que é bonito. Criar coisas bonitas é portanto fundamental e isto passa por nos entregarmos ao processo criativo com carinho, dedicação e orgulho, para no fundo irmos além dos benefícios de custo ou uso e pensar realmente na criação de algo com um sentido de beleza, inspiração e empoderamento das pessoas.

Julia Zhou trouxe ao diálogo atual da criatividade outra perspetiva. Falou da importância do flow – ou seja, de encontrarmos em nós aquilo que realmente nos move e nos emociona pois é nesse território que surgem as nossas melhores criações. Destaca igualmente a curiosidade e diz que esta contribui para o flow que por sua vez nos leva a mais e melhores processos criativos.

Alan Iny, num racional mais pragmático e orientado para o negócio e a criação de valor, realça que o importante não é pensar fora da caixa mas sim em novas caixas. Desconstrói o processo criativo em cinco passos: a dúvida, a exploração, a divergência, a convergência e a reavaliação. E porquê a reavaliação? Porque Alan Iny defende que nunca uma boa ideia o é para sempre! Pensar em novas caixas mentais é o que nos permite ir construindo novos futuros.

Volto então a mim. Se eu tivesse de identificar três características-chave por detrás da criatividade estas seriam: curiosidade, coragem e compromisso. E o compromisso aqui é realmente essa grande vontade de levar o presente para o futuro de forma diferenciada e com sustentação de progresso.

Para mim a criatividade tem de ter um propósito e um impacto maiores na sociedade, no mundo. Tem de trazer bem. Tem de estar alinhada com a filosofia de uma marca ou de uma instituição. Tem de gerar valor para os vários stakeholders, e sou exigente neste ponto. Ou seja, eu vejo a criatividade, o pensamento e o processo criativo com muita emoção mas também com muita racionalidade de negócio, de potencial de mobilização, de inspiração. Não gosto de criar pequeno, gosto de criar com impacto no sentido de inspirar e levar as pessoas, as organizações e as sociedades mais longe.

Sei que sou uma pessoa criativa mas mais do que criar sozinha, o que gosto mesmo é de lançar um desafio numa sala, provocar ou abraçar uma ambição, lançar uma ou outra ideia mas acima de tudo ouvir todas as partes – da pessoa mais sonhadora e apaixonada da sala à pessoa mais técnica, àquele que é mais focado no retorno para o negócio. Todas as pessoas têm ideias criativas e úteis e acho mesmo obrigatório ouvir todos os ângulos e a partir daí apanhar os mais variados insights, alinhar e conduzir as equipas para a construção de macro-conceitos ambiciosos, diferentes de tudo o que se fez até data, tornando aparentes impossíveis em possíveis. Acredito muito no génio coletivo e procuro juntar para cada situação ou projeto uma equipa com talentos, competências e feitios distintos. Para mim, a criatividade nasce na curiosidade das pessoas, na diversidade das equipas e na interdisciplinaridade das matérias. A mistura não óbvia leva-nos mais além e pode ser emocionante e disruptiva. No meio de todo este gozo, procuro ser extremamente rápida e pragmática na análise e no embrulho dos elementos num formato com sentido que contribua para os objetivos definidos. É claro que por detrás de tudo isto está uma imensa curiosidade, um gosto enorme por investigar e estudar o mundo e as pessoas – os contextos, as tendências, as industrias, as empresas, os comportamentos humanos e as necessidades e oportunidades que daí emergem. Acredito que quanto mais mundo tivermos, mais ideias e sensações conseguimos explorar. Ou seja, sou criativa mas não crio sozinha, tenho um papel maior na visão, na perspetivação dos outros e dos projetos, na montagem de equipas criativas e na facilitação e energização do pensamento e do processo criativo.

Preparação, preparação, preparação, planeamento, planeamento, planeamento são princípios importantes para estarmos bem posicionados para criar. O tempo que se dedica a leituras, a ir a espetáculos, assistir a conferências, a estudar as matérias, é essencial, e não facilito nisso. Faz parte da nossa agenda enquanto seres criadores ou promotores de criações.

No momento da reflexão e pensamento, deixo fluir, deixo quase o processo acontecer por ele, com a energia natural das pessoas. No momento da criação, sou a favor de explosões criativas mas com pensamento paralelo organizado, em que vamos quase que em tempo real montando um primeiro radar com pistas sobre como as coisas podem vir a acontecer. Isto tem duas vantagens, trazer sentido prático às ideias que vão surgindo e acelerar processos.

Quando me dizem: ‘olhe eu gostava de fazer uma coisa que acho que nunca foi feita e que não sei se é possível mas gostava de explorar consigo’ – bom, isto é dos melhores presentes que me podem dar. E quando vem a pergunta seguinte ‘bom, e agora que isto está feito, qual a próxima ambição que podemos abraçar?’. E pronto, é isto que adoro agarrar, os projetos-missão, aqueles que ainda são difíceis de definir mas que nascem desde logo para responder a um grande desafio ou a um sonho.

3. Sobre livros e inspirações. Havendo tantas verdades e possibilidades, resolvi olhar para a minha biblioteca e fazer o exercício de escolher livros de referência que me inspiram no meu estilo e na minha forma de estar em criação, digamos. Não são livros óbvios mas são os que me tocam no meu gosto de presença e de crescimento na diversidade e na interdisciplinaridade.

– The Art of Possibility – transforming professional and personal life, de Rosamund Zander e Benjamin Zander. Absolutamente obrigatório. É mágico e retira-nos qualquer visão de impossíveis na vida. Este livro devia ser obrigatório para todos os alunos do 9º ano e todas as pessoas nas empresas. É inspirador, transformador e coloca a responsabilidade da criação e da possibilidade em nós.

– Presence: Bringing Your Boldest Self to Your Biggest Challenges, de Amy Cuddy. Para mim, um imperativo. Às vezes quando me perguntam como consigo estar envolvida em tantas e tão diversas iniciativas, é por isto, por estar presente, por estar no momento. Quando estou num sítio ou num projeto, estou. E estou focada. E por isso estou atenta aos dizeres, aos sinais e às emoções das pessoas e mais facilmente consigo integrar, combinar, criar a partir de todos.

– Cirque du Soleil: The Spark – Igniting the Creative Fire that Lives within Us All, de Lyn Heward e John U. Bacon. A meu ver, é dos casos mais expressivos de criação, de mistura de disciplinas, de união de egos em peças únicas e maiores do que cada um mas que só são possíveis porque estamos todos presentes e desempenhamos um papel. É a diversidade, a combinação, a construção de uma arte com várias artes. A beleza em forma de um espetáculo que é pensado do princípio ao fim para evocar emoções. Qualquer que seja a nossa indústria, a nossa empresa ou função, não há como não estar com o espirito e a cultura de criatividade e rigor do Cirque du Soleil.

– Open Business Models – How to Thrive in the New Innovation Landscape, de Henry Chesbrough. É o livro que mais gosto quando passamos para o diálogo da criatividade e da inovação corporativa. É quando envolvemos todos os stakeholders no processo da disrupção, da transformação e da evolução. Quando nos abrimos, colaboramos e crescemos em conjunto.

– Collective Genius – The Art and Practice of Leading Innovation, de Linda A. Hill, Greg Brandeau, Emily Truelove e Kent Lineback. E aqui penso que o título diz tudo. São as pistas certas para a energização do génio coletivo de uma equipa – desde saber constituí-la, a saber estimulá-la para grandes fins e mais além, vezes e vezes sem conta. É sabermos potenciar as pessoas e uni-las num génio coletivo.

– Thinking in New Boxes: A New Paradigm for Business Creativity, de Alan Iny e Luc de Brabandère. Livro muito interessante na medida em que traz uma metodologia atrativa, eficaz e simples de pôr em prática. É muito orientado para o negócio e a criação de valor e tem um processo que facilita a união e alinhamento das pessoas para pensarem projetos, produtos, serviços, empresas ou industrias, em novas caixas.

– Great by Choice – Uncertainty, Chaos, and Luck – Why some thrive despite them all, de Jim Collins e Morten T. Hansen. É mais um livro de Collins que eu adoro, seguindo o From Good to Great e o Built to Last. Este gosto em particular, porque nos traz de forma muito viva que a ambição e a grandiosidade que pomos nos projetos ou nas criações é de facto, uma escolha. Uma opção nossa. É óbvio que há todo o contexto, o trabalho, a pressão e a sorte, também, mas sem o fator da determinação e sem a enorme entrega nossa para fazer mais e maior, nada acontece mais e maior.

– Bold: How to Go Big, Create Wealth, and Impact the World, de Peter Diamandis e Steven Kotler. Bom, destes autores há toda uma triologia imensamente interessante. Começa no Abundance, continua com o Bold e termina com o mais recente livro desta dupla de autores, o The future is faster than you think. Todos valem muito a pena sendo que aqui refiro o Bold pois a meu ver tem uma mensagem absolutamente imperativa nos dias de hoje: as maiores oportunidades do mundo estão nas suas maiores necessidades. E Diamandis ainda acrescenta que os grandes bilionários serão não os que têm biliões de dólares nas suas contas mas aqueles que tocam e impactam positivamente biliões de vidas. E aqui reforço então que a genuína preocupação com o mundo e as pessoas deve ser o motor da criatividade para o bom progresso da humanidade.

E a criatividade? É tudo isto e muito mais quando queremos criar futuros maiores e melhores para todos. É entregarmo-nos à vida com muita vida.

Carlota Ribeiro Ferreira, CEO da WIN WORLD

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