E a exaustão digital?

Tem-se discutido se as empresas devem ou não pagar as despesas acrescidas em que os seus colaboradores incorrem quando se encontram em teletrabalho. O Governo esclareceu recentemente que uma parte dos encargos com o telefone e o acesso à internet deve ser suportada pelo empregador, deixando de fora os gastos com eletricidade, água e gás. Nesse contexto, estão em curso iniciativas parlamentares com o objetivo de aumentar a abrangência do que deve ser pago pela entidade patronal.

Tratando-se de matéria relevante, a questão é que há muito "mais vida" para além destas simples contas. Ou melhor, há muito mais custos, em especial de natureza não monetária, de enorme relevância tanto para empregados como para empregadores.

Sabe-se que quem está em home office tende a trabalhar muito mais do que no regime presencial. Refiro-me, como é óbvio, aos que estão efetivamente a trabalhar e não aos que estão a fingir que trabalham, seja por culpa própria, seja por culpa de quem organiza e coordena (mal!) a sua atividade.

Muitos trabalhadores enfrentam situações de verdadeira exaustão digital que, a prazo, acarretam enormes custos em termos da sua saúde e produtividade, da sobrevivência das organizações e, em última instância, do desenvolvimento económico e social do país. Trata-se de matéria tanto mais relevante quanto se sabe que há cada vez mais empresas a considerarem o teletrabalho (total ou parcial) como solução para o mundo pós-covid. Para evitar essa exaustão digital, exige-se que as entidades empregadoras, tanto privadas como públicas, implementem novas formas de gestão.

Inovar na criação de capital relacional. Um dos principais ativos de qualquer organização é o valor implícito da rede de relações estabelecida entre os que nela trabalham. Com equipas fisicamente separadas, onde não há lugar à "pancadinha nas costas" ou ao "cavaquear durante a pausa do café", a forma de construção desse capital terá de ser necessariamente diferente.

Inovar nos espaços e na tecnologia. A gestão do teletrabalho vai muito para além de saber quem paga as contas. É necessário que as entidades empregadoras criem condições de espaço e de suporte digital muito diferentes daquelas que existem atualmente - porque as atuais foram concebidas para dar resposta a formas de organização do trabalho do passado. As novas condições irão exigir muito mais do que um computador e acesso web para toda a gente.

Inovar na organização do trabalho. O desafio não é fazer com que as pessoas trabalhem mais - o desafio é evitar que trabalhem demasiado... porque, com frequência, isso está associado a baixa produtividade. Sem prejuízo da necessária flexibilidade, há que respeitar o tempo de descanso, de lazer e o dedicado à família de quem está a trabalhar a partir de casa. Mais do que nunca, há que garantir o equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal porque o risco de sobreposição é muito grande quando o espaço é partilhado entre as duas.

Não fui treinado para gerir equipas em teletrabalho e admito que a grande maioria dos meus leitores também não o tenha sido. Vamos por isso ter de aprender a lidar com os novos desafios. É que as grandes mudanças não se limitam a reforçar os meios digitais e muito menos a saber quem paga as contas, sem que isto signifique que são assuntos de somenos importância. A grande revolução passa pela forma de estar na vida e no trabalho. Porque uma coisa eu sei: não quero voltar ao mundo pré-covid, àquele que gerou a pandemia e que nos estava (e ainda está!) a levar ao abismo do ponto de vista ambiental.

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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