Opinião

É a inovação, estúpido!

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"O problema é que nas empresas a inovação é demasiadas vezes conseguida à custa da criatividade em detrimento do conhecimento de ponta"

A inovação está intimamente ligada ao crescimento da economia e ao desenvolvimento das sociedades. Mas o que é inovação? É simplesmente criar coisas novas? Mais do que isso, consiste no processo de geração de valor com base em novas soluções. Para que tal ocorra são fundamentais três “ingredientes”: criatividade, conhecimento e marketing.

Há muitos exemplos de inovações que decorrem em larga medida do espírito criativo. Veja-se o caso do papel higiénico preto da Renova. Quebrando o paradigma de que o produto deve ser claro, a empresa produziu um papel negro que, apesar de funcionalmente não ser melhor, tem um preço que é o dobro de um branco da mesma marca. Na realidade, a inovação está na transformação de um mero artigo de higiene num produto que também é de decoração – e daí o acréscimo de valor.

Mas não basta ser-se criativo. A inovação requer, com frequência, investigação geradora de conhecimento científico. É fruto do investimento em I&D (que em Portugal é cerca de 1,4% do PIB, ainda assim aquém dos 2% da média comunitária) que hoje temos casos de sucesso como a Veniam, uma empresa criada no ecossistema da Universidade do Porto que detém mais de cem patentes para desenvolver a nível global o seu negócio no domínio da internet das coisas.

Finalmente, é preciso marketing. Não necessariamente no sentido de estratégia formal, mas enquanto atitude de reconhecimento que o valor se cria no mercado. Quando tal não se verifica, podem desenvolver-se produtos “fantásticos” que, não respondendo a necessidades e expectativas, só servem para destruir valor económico, social e ambiental. Empresas de referência em termos de inovação como Apple, Google ou Hermès não teriam atingido o topo a nível mundial sem uma forte orientação de marketing.

Em suma, posso garantir que não existe uma receita para a inovação. Mas uma coisa é certa: não há processos de inovação bem-sucedidos sem estes três “ingredientes”. O problema é que nas empresas a inovação é demasiadas vezes conseguida à custa da criatividade em detrimento do conhecimento de ponta; no meio científico e tecnológico, e em particular nas universidades, assenta muito na investigação, faltando-lhe espírito criativo; e em ambos os contextos falha com frequência a atitude de marketing sem a qual a criação de valor será sempre limitada. Ultrapassar estes obstáculos é o nosso grande desafio pois só assim teremos uma economia mais competitiva e geradora de riqueza.

Professor da Faculdade de Economia do Porto

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