Opinião

E a sua pandemia, como tem andado?

Protestos COVID-19 vírus EUA

Faz dois meses e meio que estamos a trabalhar de casa, como a grande maioria da pessoas por esse mundo fora. Logo na primeira semana, 6 milhões de americanos entraram nos números do desemprego.

Mais 3 milhões na segunda semana e passadas 10 semanas, já são 38.6 milhões de americanos desempregados. Estima-se que 1 em cada 5 americanos ficou sem emprego. E isto ainda está longe de acabar. Nesta pandemia aprendi muita coisa, nomeadamente que o significado de layoff nos Estados Unidos não é o mesmo que em Portugal. Vi várias pessoas em Portugal queixarem-se que tinham sido laid off. Mas só depois percebi que quem é laid off em Portugal fica a receber 70% do salário, pago pelo estado, e depois recupera o emprego. Ora, nos Estados Unidos, quem é laid off, perde o emprego, recebe 0%. Digamos que receber 70% e ter direito a ter o emprego de volta não é nada mau.

Furlough foi outra coisa que aprendi, nunca tinha ouvido esta palavra (não tem tradução para português). O que é que quer dizer? Quer dizer que a empresa manda os empregados para casa durante um certo período de tempo, e não lhes paga o salário. O empregado mantém os benefícios, diga-se seguro de saúde, e mantém a esperança de voltar ao trabalho, se as coisas melhorarem, claro. E como é que eu aprendi esta a palavra? A minha namorada / companheira foi furloughed. Estava em licença de maternidade, voltou ao trabalho (remotamente) e a empresa onde trabalhava laid off e furloughed centenas de pessoas, tudo via videoconferência. Será que a empresa se preocupou o que ela ia dar de comer à bebé de 5 meses? Não, isso não acontece aqui. Aconteceu que passados 5 dias, recebeu uma proposta de outra empresa, e ainda por cima a ganhar mais. Mesmo num mercado grande e com grande rotação como este, é caso único no meio da pandemia.

Outra coisa que a pandemia veio ensinar, foi que podemos trabalhar de qualquer lado. A noção de mobilidade ganhou outro patamar. E isto tem tanto de bom como de terrível. Estar fechado em casa, sem ter outra alternativa, tem repercussões muito graves para a saúde mental. O Facebook e o Twitter já vieram anunciar que os seus colaboradores podem optar por trabalhar desde casa, para sempre. Se o objectivo é dar mais liberdade e mobilidade aos empregados que tem condições para o fazer (alguém que more numa casa grande, onde possa ter babás para os filhos, ou pessoas solteiras), fantástico. Ora, se o objectivo é poupar na renda do escritório, aí vamos estar pior do que já estávamos. A ganância foi uma das coisas que levou o mundo a estar no estado que está. A pandemia supostamente é um aviso sério para que se mudem drásticamente certo tipo de comportamentos. Eu sou naive, por isso vou continuar a acreditar em que as boas intenções vêm sempre primeiro.

E por fim, a pandemia veio pôr à prova quem são os verdadeiros líderes. É nestas alturas que a verdade vem ao de cima. Está mais que claro do desgoverno que tem sido os Estados Unidos nas mãos do Donald. O que nos salva é que os estados são independentes, e no caso de Nova Iorque estamos bem servidos com o Governador Cuomo. Tirando o absurdo do 1º de Maio, tenho muito orgulho no que tem sido feito em Portugal e de como o Presidente, Primeiro Ministro e o líder da oposição souberam gerir este momento terrível. E no mundo do trabalho, tenho muita sorte de trabalhar numa agência bem gerida, que coloca as pessoas em primeiro lugar. Até agora, a VMLY&R foi das únicas grandes agências que não fez despedimentos em massa, cortes de salários e furlough. Dou graças todos os dias por trabalhar com gente que sabe o que faz, com bom fundo humano e sentido de liderança único. Estávamos melhor preparados para entrar numa crise e estamos melhor preparados para sair dela.

Ah! E mudar de casa em Nova Iorque no meio da pandemia? Também aprendi. Na próxima pandemia, vou estar mais preparado. E como é? Conto noutra altura (smiley face).

North American Executive Creative Director na VMLY&R NY

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